Pais Apostólicos
Pastor de Hermas
Texto cristão antigo muito lido nos primeiros séculos, composto por visões, mandamentos e parábolas sobre arrependimento, perseverança e vida comunitária.
Tradução própria do Papel Amassado · pt-BR
Sobre a obra
O Pastor de Hermas circulou amplamente na igreja antiga e aparece em algumas listas e manuscritos cristãos primitivos, embora não tenha entrado no cânon do Novo Testamento. Esta edição organiza a obra em sua divisão tradicional: Visões, Mandamentos e Semelhanças.
Mandamentos
Crer em um só Deus
1Antes de tudo, crê que há um só Deus, que criou e completou todas as coisas, fazendo-as existir do nada. Ele contém todas as coisas, mas não pode ser contido por nenhuma delas. Crê nele, teme-o e, temendo-o, domina-te.
2Guarda este mandamento. Assim lançarás fora de ti toda maldade, revestir-te-ás da força da justiça e viverás para Deus.
Não falar mal e dar com simplicidade
1O Pastor disse: “Sê simples e inocente, como criança que não conhece a maldade que destrói a vida dos homens. Antes de tudo, não fales mal de ninguém, nem ouças com prazer quem fala mal do irmão. Se ouvires e creres na difamação, participarás do pecado daquele que difama.”
2“A difamação é má e inquieta; nunca permanece em paz, mas vive na discórdia. Afasta-te dela e viverás em paz com todos. Reveste-te de santidade, na qual não há tropeço mau, mas obras retas e alegres.”
3“Pratica a bondade. Do fruto de teu trabalho, que Deus te dá, reparte com todos os necessitados em simplicidade, sem hesitar a quem dar e a quem não dar. Dá a todos, pois Deus quer que seus dons sejam partilhados. Quem recebe prestará contas a Deus; mas quem dá em simplicidade é inocente e glorioso diante do Senhor.”
Amar a verdade
1O Pastor disse: “Ama a verdade, e que somente a verdade saia de tua boca, para que o espírito que Deus colocou em tua carne seja achado verdadeiro diante de todos. O Senhor, que habita em ti, será glorificado, pois o Senhor é verdadeiro em toda palavra e nele não há mentira.”
2“Os que mentem negam o Senhor e o roubam, pois não devolvem puro o depósito que receberam: o espírito sem falsidade. Quando o entregam manchado pela mentira, tornam-se ladrões do mandamento do Senhor.”
3Ao ouvir isso, chorei muito e disse: “Senhor, não sei se posso ser salvo, pois muitas vezes falei com dissimulação.” Ele respondeu: “Agora ouves. Guarda estas palavras; se daqui em diante falares somente a verdade, até as antigas falsidades perderão força, e viverás para Deus.”
Guardar a castidade
1“Ordeno-te que guardes a castidade. Não deixes subir ao coração pensamento por mulher alheia, fornicação ou coisa semelhante. Ao fazer isso, cometerias grande pecado. Lembra-te sempre de tua própria esposa, e não pecarás.”
2“Onde habita a pureza, não deve entrar iniquidade no coração do justo. Se o mau pensamento entra e é acolhido, já há pecado. Vigia, pois, e mantém teu coração limpo diante de Deus.”
Separação, adultério e arrependimento
1Perguntei: “Senhor, se alguém tem esposa fiel ao Senhor e descobre que ela adulterou, peca se continuar com ela?” Ele respondeu: “Enquanto ignora o pecado, não peca. Mas se sabe que ela se desviou e não se arrepende, persistindo no mal, e ainda assim vive com ela, torna-se participante do pecado dela.”
2Perguntei: “Que deve fazer o marido?” Ele respondeu: “Deve separar-se e permanecer só. Se, porém, separar-se e casar com outra, também adultera. Se a mulher separada se arrepender e quiser voltar, deve ser recebida; se o marido não a recebe, peca, pois deve receber aquele que se arrependeu. Mas não repetidas vezes; há um só arrependimento para os servos de Deus.”
3“O mesmo vale para homem e mulher. Não dou ocasião para o pecado, mas para que aquele que pecou não peque mais. Quanto aos pecados passados, há um que pode curá-los: aquele que tem poder sobre todas as coisas.”
A sabedoria do arrependimento
1Perguntei ainda, pois meu coração era duro: “Dá-me entendimento, porque sou lento e nada compreendo.” Ele respondeu: “Estou posto sobre o arrependimento e dou entendimento aos que se arrependem. Não te parece grande sabedoria arrepender-se?”
2“Quem pecou compreende que agiu mal diante do Senhor, lembra-se de suas obras, arrepende-se, deixa o mal, faz o bem com generosidade, humilha a própria alma e a disciplina por causa do pecado. Vês, pois, que o arrependimento é grande sabedoria.”
Tristeza e paciência
1“Sê paciente e prudente”, disse ele, “e dominarás todas as obras más. Se fores paciente, o Espírito Santo que habita em ti será puro e não será obscurecido por outro espírito mau. Habitando em lugar espaçoso, alegrar-se-á com o vaso em que mora e servirá a Deus com grande alegria.”
2“Mas quando a ira se aproxima, o Espírito delicado se estreita e procura afastar-se. A ira é amarga e sem entendimento; perturba o homem e expulsa a mansidão.”
A tristeza que mata
1“Afasta de ti a tristeza, pois ela é irmã da dúvida e da ira. A tristeza é pior que todos os espíritos, porque entristece o Espírito Santo e depois salva ou destrói conforme o homem se deixa conduzir. O triste não consegue orar com coração limpo, nem confessar plenamente ao Senhor.”
2Perguntei: “Como, senhor, a tristeza pode salvar?” Ele disse: “Quando o homem se entristece por ter praticado o mal e se arrepende, essa tristeza conduz à vida. Mas a tristeza do mundo, nascida da ira, da perda e da ambição, produz morte. Portanto, lança fora a tristeza má e reveste-te da alegria em Deus.”
Os dois anjos do homem
1“Há dois anjos com o homem: um da justiça e outro da maldade. O anjo da justiça é delicado, modesto, manso e pacífico. Quando sobe ao teu coração, fala de justiça, pureza, santidade, contentamento, toda obra justa e toda virtude gloriosa. Quando essas coisas entram em teu coração, sabe que o anjo da justiça está contigo.”
2“O anjo da maldade é irascível, amargo e insensato; suas obras são más e destroem os servos de Deus. Quando entra no coração, conhece-o por suas obras: ira, amargura, desejo de muitas ocupações, luxo, comidas e bebidas sem medida, ambições, soberba, ostentação e tudo que se assemelha a isso.”
Seguir o anjo da justiça
1“Crê no anjo da justiça e afasta-te do anjo da maldade. O primeiro te conduz por caminho reto; o segundo te leva para longe do Senhor. Se obedeceres ao anjo da justiça, viverás para Deus; se obedeceres ao anjo da maldade, morrerás.”
Temer a Deus, não o diabo
1“Teme o Senhor e guarda seus mandamentos. Temendo a Deus, serás forte em tudo; o temor do Senhor habitará contigo e expulsará o mal. Não temas o diabo, pois, se temes o Senhor, dominarás o diabo, porque nele não há força.”
2“Quem tem o Senhor no coração é poderoso. O diabo pode lutar, mas não vence quem está cheio de fé. Teme, portanto, as obras do diabo e não o próprio diabo. Teme praticar o mal; ama praticar o bem.”
Evitar o mal e praticar o bem
1“Eu te disse”, continuou ele, “que há duas espécies de obras: abstém-te de uma e pratica a outra. Abstém-te do adultério, fornicação, embriaguez, luxúria, excesso de comida, riqueza orgulhosa, arrogância, mentira, difamação, hipocrisia, ressentimento e toda blasfêmia.”
2“Pratica o bem: fé, temor do Senhor, amor, concórdia, palavras justas, verdade, paciência. Socorre viúvas, visita órfãos e necessitados, resgata os servos de Deus de suas aflições, sê hospitaleiro, resiste ao orgulho, respeita os mais velhos, pratica a justiça e conserva a fraternidade.”
3“Abstendo-te do mal e praticando o bem, viverás para Deus. Todos os que fizerem assim viverão para Deus.”
Orar sem dúvida
1“Remove de ti a dúvida e não hesites em pedir algo a Deus, dizendo: ‘Como posso pedir, se pequei tanto contra ele?’ Não penses assim. Converte-te ao Senhor de todo o coração e pede sem duvidar; conhecerás sua grande misericórdia, pois ele não te abandonará.”
2“A dúvida é filha do diabo e poderosa contra os servos de Deus. Despreza-a. Reveste-te de fé, que é forte. A fé promete tudo e realiza tudo; a dúvida, não confiando em si mesma, falha em toda obra que empreende.”
3“Quem duvida é de ânimo duplo e nada alcança. Purifica teu coração da dúvida, pede com confiança e receberás. Se demorares a receber, não desanimes; a demora pode ser prova ou consequência de algum pecado que desconheces. Persevera, e receberás.”
Não entristecer o Espírito
1“Afasta de ti a tristeza, pois ela é irmã da dúvida e da ira.” Perguntei: “Como são irmãs, se parecem diferentes?” Ele respondeu: “A ira é amarga, a dúvida é incerta, e a tristeza é pesada. Quando estas se misturam, entristecem o Espírito Santo.”
2“O homem triste sempre age mal: primeiro, porque entristece o Espírito dado ao homem; depois, porque deixa de orar e confessar a Deus. Como vinagre misturado ao vinho estraga seu sabor, assim a tristeza misturada ao Espírito Santo destrói a força da oração.”
Revestir-se da alegria
1“Reveste-te, portanto, da alegria que sempre tem favor diante de Deus. Todo homem alegre pratica o bem, pensa o bem e despreza a tristeza. O homem triste faz o mal, porque entristece o Espírito e porque não se alegra nas obras da justiça.”
2“Expulsa a tristeza e viverás para Deus. Todos os que expulsarem a tristeza e se revestirem da alegria viverão para Deus.”
Provar os profetas
1Mostrou-me homens sentados em bancos e outro homem sentado numa cadeira. Perguntou: “Vês os que estão sentados?” Respondi que sim. Ele disse: “São fiéis. O que se assenta na cadeira é falso profeta, que destrói o entendimento dos servos de Deus; dos duvidosos, não dos fiéis.”
2“Os duvidosos vão a ele como a adivinho e perguntam o que lhes acontecerá. Ele, vazio do Espírito de Deus, responde segundo seus desejos e enche-lhes a alma conforme querem ouvir. Sendo vazio, responde coisas vazias a homens vazios.”
O profeta verdadeiro
1Perguntei: “Como reconhecer o verdadeiro e o falso?” Ele disse: “O homem que tem o Espírito de Deus é manso, tranquilo, humilde, evita todo desejo mau e toda vaidade deste mundo. Não fala por si mesmo, nem quando o homem quer, mas quando Deus quer que fale.”
2“Quando o homem que tem o Espírito divino entra na assembleia de justos que têm fé, e a oração sobe a Deus, então o anjo do espírito profético o enche, e ele fala conforme o Senhor quer. Assim se reconhece o Espírito de Deus.”
3“O falso profeta é ousado, impudente e falador; vive em luxo e recebe recompensa por sua profecia. O Espírito de Deus não recebe pagamento. Pela vida de cada um, portanto, reconhece o profeta verdadeiro e o falso.”
O desejo bom e o desejo mau
1Ele me disse: “Remove de ti todo desejo mau e reveste-te do desejo bom e santo. O desejo mau é selvagem, difícil de domesticar; mata os servos de Deus se não resistirem a ele. Porém o desejo bom é manso e amigo da justiça.”
2“Teme o desejo mau, pois ele tem muitas faces: desejo de riquezas alheias, comidas e bebidas excessivas, luxúrias, orgulho, arrogância, vaidade e todas as coisas semelhantes. Os que se entregam a essas obras morrem para Deus.”
Os mandamentos podem ser guardados
1Eu disse: “Senhor, estes mandamentos são grandes e belos; mas quem pode guardá-los?” Ele respondeu: “Se puseres no coração que podem ser guardados, facilmente os guardarás. Se disseres que não podem, não os guardarás.”
2“Não temas o diabo. Ele não tem poder sobre os servos de Deus que esperam no Senhor de todo o coração. O diabo luta, mas não vence. Resistindo a ele com fé, fugirá vencido. O que dá força ao diabo é a dúvida dos homens.”
3“Guarda, pois, estes mandamentos, e entrega ao Senhor tua vida. Todo aquele que os guardar viverá para Deus. Mas quem os negligenciar e seguir o desejo mau, morrerá.”
Semelhanças
A cidade futura
1O Pastor disse: “Sabeis que vós, servos de Deus, habitais em terra estrangeira; vossa cidade está longe desta. Se conheceis a cidade em que deveis habitar, por que acumulais aqui campos, casas, edifícios caros e preparações inúteis?”
2“O senhor desta cidade poderá dizer: ‘Não quero que habites em minha cidade; parte daqui, porque não obedeces às minhas leis.’ Que farás, então, com os campos e casas que ajuntaste? Se, por causa deles, negares a lei de tua própria cidade, não serás recebido quando quiseres voltar.”
3“Vive, pois, como estrangeiro. Prepara apenas o necessário, e quando fores expulso desta cidade, parte com alegria para a tua. Em vez de campos, compra almas aflitas; visita viúvas e órfãos; reparte a riqueza que recebeste do Senhor. Esse gasto é santo e não traz tristeza, mas alegria.”
A videira e o olmo
1Caminhando no campo, observei uma videira e um olmo. O Pastor perguntou o que eu pensava deles. Respondi: “Combinam muito bem.” Ele disse: “Estas duas árvores são exemplo para os servos de Deus: para o pobre e para o rico.”
2“A videira dá fruto, mas, se fica no chão, produz pouco e fruto ruim. Apoiada no olmo, produz muito fruto. O olmo parece estéril, mas sustenta a videira e participa de sua fecundidade.”
3“Assim o rico é pobre diante do Senhor quando se ocupa apenas de suas riquezas; suas orações são pequenas. O pobre, porém, é rico em oração. Quando o rico socorre o pobre, e o pobre intercede pelo rico, ambos cumprem sua obra diante de Deus. O rico administra os bens recebidos do Senhor; o pobre oferece intercessão poderosa. Ambos se tornam parceiros na justiça.”
As árvores no inverno
1Ele me mostrou muitas árvores sem folhas, todas parecendo secas. Perguntou: “Vês estas árvores?” Eu disse: “Vejo que todas parecem iguais.” Ele respondeu: “Estas árvores são os habitantes deste mundo.”
2“Neste mundo, os justos e os pecadores não se distinguem plenamente; esta vida é inverno para os justos. Como no inverno as árvores sem folhas parecem iguais, assim neste mundo os justos e os injustos parecem semelhantes.”
As árvores no verão
1Depois mostrou-me árvores brotando e outras secas. Disse: “As que brotam são os justos que viverão no mundo futuro. O mundo futuro é verão para os justos e inverno para os pecadores.”
2“No verão, os frutos revelam quais árvores vivem e quais estão secas. Assim também, quando a misericórdia do Senhor resplandecer, serão manifestos os que serviram a Deus e os que se entregaram à injustiça.”
O verdadeiro jejum
1Enquanto jejuava sentado num monte, agradecendo a Deus por tudo que fizera comigo, o Pastor sentou-se ao meu lado e perguntou: “Por que vieste tão cedo?” Respondi: “Estou guardando uma estação de jejum.” Ele disse: “Que jejum é esse que guardais?”
2Respondi: “Jejuo como estou acostumado.” Ele disse: “Não sabeis jejuar para Deus. Esse jejum exterior, por si só, nada realiza. O verdadeiro jejum é guardar os mandamentos do Senhor: não fazer o mal, servir a Deus com coração puro, caminhar em seus preceitos e afastar todo desejo mau.”
Jejum e esmola
1“No dia em que jejuares, toma apenas pão e água; calcula o que gastarias com alimento e entrega essa quantia à viúva, ao órfão ou ao necessitado. Assim humilharás tua alma e aquele que receber se alegrará e orará por ti ao Senhor.”
2“Se jejuardes assim, vosso sacrifício será agradável a Deus. Esse jejum é bom quando praticado com os mandamentos do Senhor.”
O campo e o servo fiel
1Ele contou uma parábola: “Certo homem possuía campo, servos e vinhas. Ao viajar, confiou a vinha a um servo, ordenando-lhe que a cercasse. O servo não apenas cercou a vinha, mas arrancou as ervas daninhas. Quando o senhor voltou e viu que o servo fizera mais do que o ordenado, alegrou-se.”
2“Chamou então seu filho e seus amigos, e decidiu tornar o servo coerdeiro do filho, porque fora fiel. Assim também, quando guardais os mandamentos e ainda acrescentais obras de serviço e misericórdia, sois honrados diante do Senhor.”
O pastor do prazer
1Ele me mostrou um pastor vestido com luxo, cercado de muitas ovelhas. Algumas saltavam com prazer, outras estavam fracas e tristes. O Pastor disse: “Este é o anjo do prazer e do engano. Ele corrompe os servos de Deus, desviando-os da verdade e entregando-os a desejos maus.”
2“Os que se entregam a prazeres e não se arrependem morrem. Os que se desviaram por algum tempo, mas se arrependem, ainda podem viver, se abandonarem suas obras.”
Punição e retorno
1“Vês as ovelhas castigadas?” perguntou ele. “São aqueles que se entregaram ao prazer, mas depois se lembraram do Senhor. Recebem disciplina para que vivam. A disciplina parece amarga por um tempo, mas produz fruto de justiça.”
2“Os que persistem nos prazeres até o fim são entregues à morte. Os que suportam a disciplina e se arrependem serão purificados.”
O arrependimento precisa produzir fruto
1Depois de alguns dias, vi o Pastor castigando-me severamente por causa de minha casa. Fiquei abatido e perguntei por que eu sofria. Ele disse: “És corrigido para que tua casa seja purificada. Enquanto teus filhos e tua esposa forem corrigidos, tu também serás provado, porque foste descuidado com eles.”
2“A correção é útil se produz fruto. Não basta dizer: ‘Arrependo-me.’ É preciso praticar as obras do arrependimento: humildade, simplicidade, justiça, misericórdia e abandono das antigas maldades.”
O grande salgueiro e os ramos
1Ele me mostrou um grande salgueiro que cobria campos e montes. Sob sua sombra estavam todos os chamados pelo nome do Senhor. Um anjo glorioso cortava ramos do salgueiro e os entregava ao povo, cada um recebendo um ramo pequeno.
2Depois pediu que todos devolvessem os ramos. Alguns os devolveram verdes e vivos; outros, murchos; outros, meio secos; outros, rachados; outros, secos e comidos por insetos; alguns, porém, haviam brotado e produzido fruto. O anjo examinou todos e separou cada grupo.”
O sentido dos ramos
1Perguntei ao Pastor o que significava o salgueiro. Ele respondeu: “É a lei de Deus, dada ao mundo inteiro; e o grande anjo é Miguel, que governa este povo. Os ramos são a lei entregue a cada um.”
2“Os que devolveram ramos verdes são os que guardaram a lei em pureza. Os ramos com brotos e frutos pertencem aos que sofreram pelo nome do Senhor e perseveraram. Os ramos murchos são os que ouviram a lei, mas se deixaram sufocar por negócios e riquezas.”
Diversos estados de arrependimento
1“Os ramos meio secos são os duvidosos; os rachados são os que guardam rancores e divisões; os secos e comidos são os que se entregaram por completo à maldade. Mesmo entre eles, alguns ainda podem arrepender-se se agirem depressa, enquanto a árvore ainda está viva.”
2“Os que se arrependerem receberão lugar na torre, mas cada um conforme suas obras. Não todos no mesmo grau, pois o arrependimento de cada um tem medida diversa. Bem-aventurados os que guardaram o ramo verde desde o princípio.”
O monte e a rocha antiga
1Depois de eu ter escrito os mandamentos e as semelhanças, o Pastor veio e me levou para a Arcádia, a um monte em forma de seio. Sentamo-nos, e ele me mostrou uma grande planície cercada por doze montes. No meio da planície havia uma rocha antiga, alta e branca, maior que os montes, com uma porta recentemente talhada nela.
2A porta brilhava mais que o sol. Ao redor dela estavam doze virgens. Vieram então seis homens altos e gloriosos, semelhantes aos que eu vira antes, e chamaram uma multidão de homens fortes. Ordenaram-lhes que edificassem uma torre sobre a rocha e acima da porta.”
A construção da torre pelas virgens
1As virgens, que estavam junto à porta, recebiam as pedras dos homens e as passavam para a construção. As pedras que vinham das profundezas eram colocadas diretamente, pois se ajustavam à rocha. Outras pedras eram trazidas dos montes; algumas serviam, outras eram rejeitadas.
2A torre se erguia sobre a rocha e sobre a porta. Perguntei ao Pastor: “Por que as pedras passam pelas mãos das virgens?” Ele respondeu: “Porque ninguém pode entrar no Reino de Deus se não receber o nome delas.”
A rocha, a porta e o Filho de Deus
1Perguntei: “Senhor, que são a rocha e a porta?” Ele disse: “A rocha e a porta são o Filho de Deus.” Perguntei: “Como podem ser uma só coisa?” Ele respondeu: “Porque ninguém entra no Reino de Deus senão pelo nome de seu Filho. A rocha é antiga, pois o Filho de Deus é anterior a toda criação; a porta é nova, pois apareceu nos últimos dias para que os que haveriam de ser salvos entrassem por ela.”
2“Vês que a torre é construída sobre a rocha e sobre a porta? Assim a Igreja é edificada sobre o Filho de Deus. As pedras que não entram pela porta não podem servir ao edifício.”
As doze virgens
1Perguntei sobre as virgens. Ele respondeu: “São espíritos santos. Ninguém pode ser encontrado no Reino de Deus se elas não o revestirem com sua veste. Seus nomes são: Fé, Continência, Poder, Paciência, Simplicidade, Inocência, Pureza, Alegria, Verdade, Entendimento, Concórdia e Amor.”
2“Quem leva o nome do Filho de Deus deve também levar os nomes dessas virgens. Se alguém recebe o nome, mas não recebe seus poderes, leva o nome em vão.”
As mulheres vestidas de preto
1Vi também mulheres vestidas de preto, com cabelos soltos e ombros descobertos. Perguntei quem eram. Ele disse: “São os espíritos maus: Incredulidade, Incontinência, Desobediência, Engano, Tristeza, Maldade, Luxúria, Ira, Falsidade, Loucura, Difamação e Ódio.”
2“Se alguém serve a estas mulheres, não pode entrar na torre. Ainda que tenha recebido o nome do Filho de Deus, se se entrega a elas, será lançado para longe da construção.”
Os doze montes
1Perguntei sobre os doze montes. Ele disse: “São doze povos que habitam todo o mundo. O Filho de Deus foi anunciado a eles pelos apóstolos.” Cada monte tinha aparência diferente: alguns eram negros, outros sem vegetação, outros cheios de espinhos, outros com ervas, outros com rachaduras, outros férteis e belos.
2“De cada monte vieram pedras para a torre. As diferenças dos montes mostram as diferenças dos que creram: uns foram fiéis e simples; outros duvidosos; outros ricos e sufocados; outros hipócritas; outros perseguidos; outros generosos; outros arrependidos.”
Os apóstolos e mestres
1Perguntei pelas pedras tiradas do fundo e colocadas na torre. Ele disse: “São os apóstolos e mestres que anunciaram o nome do Filho de Deus, caminharam em santidade e ensinaram com pureza. Alguns adormeceram, outros ainda vivem, mas todos concordam na mesma obra.”
2“As pedras que se ajustam perfeitamente são os que receberam o nome e guardaram as virtudes das virgens. Por isso suas juntas não aparecem; tornaram-se um só corpo na torre.”
Pedras rejeitadas e possibilidade de retorno
1As pedras rejeitadas não foram todas lançadas ao mesmo lugar. Algumas ficaram perto da torre, outras foram levadas para longe. Perguntei se ainda havia esperança para elas. Ele respondeu: “Para algumas, sim. As que estão perto podem ser talhadas e voltar, se se arrependerem. As que foram para longe dificilmente retornarão, pois se entregaram às mulheres negras.”
2“O arrependimento é possível enquanto a construção continua. Quando a torre estiver concluída, já não haverá lugar. Por isso é necessário arrepender-se agora, enquanto o Senhor concede tempo.”
Os que sofrem pelo nome
1Vi pedras resplandecentes, adornadas, e perguntei quem eram. Ele respondeu: “São os que sofreram por causa do nome do Filho de Deus. Alguns foram entregues à morte, outros suportaram prisões, tribulações e perdas, mas não negaram o nome. Por isso têm honra especial no edifício.”
2“Os que, em sofrimento, não murmuram contra o Senhor, mas permanecem simples e fiéis, tornam-se pedras preciosas na torre.”
Ricos, duvidosos e arrependidos
1“Os ricos que não se apegam às riquezas, mas as repartem com os necessitados, tornam-se úteis à torre. Mas os que se orgulham, se envolvem em muitos negócios e esquecem o Senhor, tornam-se redondos e não entram no edifício até serem cortados.”
2“Os duvidosos são como pedras rachadas. Se expulsarem a dúvida, serão curados. Os que guardam rancor precisam reconciliar-se. Os que caíram em prazeres precisam arrepender-se com obras, não só com palavras.”
A purificação das pedras
1Depois vi as pedras rejeitadas serem entregues às virgens para que as lavassem, talhassem e provassem. Algumas se tornaram belas e foram recolocadas na torre; outras se quebraram e foram lançadas fora definitivamente.
2O Pastor disse: “Vês a misericórdia do Senhor? Ele não rejeita imediatamente os que pecaram, mas dá lugar ao arrependimento. Contudo, quem despreza a correção endurece-se e perde a vida.”
Conclusão da torre
1Quando a torre se aproximava da conclusão, o Senhor da torre veio examiná-la. Tocou as pedras, provou-as e alegrou-se com as que estavam firmes. Ordenou que fossem substituídas as que não se ajustavam, para que a construção permanecesse perfeita.
2O Pastor disse: “O Senhor conhece os seus. Nada escondido permanece oculto diante dele. As pedras belas são os servos fiéis; as defeituosas são os que precisam de arrependimento. Feliz quem for encontrado firme quando o Senhor visitar sua torre.”
Exortação final da nona semelhança
1“Anuncia estas coisas”, disse ele, “a todos os que receberam o nome do Filho de Deus. Que se arrependam os que pecaram; que permaneçam firmes os justos; que os ricos se tornem servidores dos pobres; que os duvidosos se fortaleçam na fé; que os divididos busquem a paz.”
2“A torre ainda está sendo edificada. O tempo é curto, mas a misericórdia é grande. Quem se voltar ao Senhor de todo o coração encontrará lugar na construção.”
Entrega à família de Hermas
1Depois que terminei de escrever este livro, o anjo que me havia entregue ao Pastor veio à casa onde eu estava. Sentou-se no leito e o Pastor ficou à sua direita. Chamou-me e disse: “Entreguei-te a este Pastor para que fosses protegido por ele. Se guardares seus mandamentos, serás poderoso contra todo mal.”
2“Não apenas tu, mas também tua casa, se guardar estas palavras, viverá para Deus. Corrige tua família com mansidão e constância. Não guardes rancor, mas sê exemplo de arrependimento e simplicidade.”
Obras de misericórdia
1O Pastor disse: “Acima de tudo, pratica a esmola e a misericórdia. Socorre viúvas, órfãos, pobres e aflitos. Não retenhas o que recebeste do Senhor como se fosse teu. Quem dá em simplicidade terá alegria; quem acumula para si mesmo será pesado para a torre.”
2“Guarda a pureza, a verdade e a concórdia. Não permitas que a tristeza domine teu coração. Alegra-te no Senhor, porque a alegria justa fortalece o espírito.”
Última exortação
1“Estas coisas vos escrevi para que vos arrependais e vivais para Deus. O Senhor está perto dos que se convertem a ele. Quem guarda seus mandamentos receberá vida; quem os despreza terá culpa de si mesmo.”
2Depois disso, o Pastor partiu de mim; mas suas palavras permaneceram em meu coração. Dei graças ao Senhor por sua misericórdia, e procurei andar em simplicidade, temor, fé e verdade, para viver para Deus.
Visões
Hermas, Rode e a acusação do céu
1Aquele que me criou vendeu-me, em Roma, a uma mulher chamada Rode. Muitos anos depois tornei a vê-la e comecei a estimá-la como irmã. Algum tempo depois vi que ela se banhava no Tibre; estendi-lhe a mão e a tirei da água. Admirando sua beleza, pensei comigo mesmo: “Feliz seria eu se tivesse uma esposa tão bela e tão boa como ela.” Esse foi o único pensamento que passou por mim, e nada mais.
2Pouco depois, enquanto caminhava rumo às aldeias, contemplando as obras de Deus e pensando em sua grandeza, beleza e poder, adormeci. O Espírito me levou por um lugar sem caminho, áspero e intransponível, cheio de rochas e água. Depois de atravessar aquela região, cheguei a uma planície; ali me ajoelhei, comecei a orar ao Senhor e confessei meus pecados.
3Enquanto orava, os céus se abriram, e vi a mulher que eu havia desejado. Ela me saudou do céu, dizendo: “Salve, Hermas.” Olhei para ela e perguntei: “Senhora, que fazes aqui?” Ela respondeu: “Fui elevada para acusar-te de teu pecado diante do Senhor.” Eu disse: “Senhora, és tu quem me acusa?” Ela respondeu: “Não eu; escuta, porém, as palavras que te direi.”
4“Deus, que habita nos céus, que criou do nada as coisas que existem e as multiplicou por causa de sua santa Igreja, está indignado contigo porque pecaste contra mim.” Respondi: “Como pequei contra ti? Quando te disse algo indecente? Sempre te considerei uma senhora; sempre te respeitei como irmã. Por que me acusas falsamente?” Ela sorriu e disse: “O desejo mau subiu ao teu coração.”
5“Não entendes que o justo peca quando o mau desejo se levanta dentro dele? Em tal caso há pecado, e pecado grande, pois os pensamentos do justo devem ser justos. Quando o homem pensa retamente, sua conduta é firmada nos céus e o Senhor lhe mostra misericórdia. Mas os que acolhem maus pensamentos trazem sobre si morte e cativeiro, sobretudo quando se apegam a este mundo, vangloriam-se de suas riquezas e não esperam os bens futuros.”
6“Ora a Deus, e ele curará teus pecados, os pecados de toda a tua casa e os de todos os santos.”
A mulher idosa e o livro
1Depois dessas palavras, os céus se fecharam. Fiquei tomado de tristeza e temor, dizendo comigo: “Se este pecado é imputado a mim, como serei salvo? Com que palavras pedirei ao Senhor que seja misericordioso?” Enquanto pensava nisso, vi diante de mim uma grande cadeira branca, como feita de lã alvíssima.
2Veio então uma mulher idosa, vestida com roupa resplandecente e trazendo um livro na mão. Ela sentou-se sozinha e me saudou: “Salve, Hermas.” Eu, triste e em lágrimas, respondi: “Salve, senhora.” Ela perguntou: “Por que estás abatido, Hermas? Antes eras paciente, sóbrio e alegre. Por que agora estás sombrio?”
3Respondi: “Senhora, uma mulher muito boa me censurou, dizendo que pequei contra ela.” Ela disse: “Longe esteja tal obra de um servo de Deus. Talvez tenha surgido em teu coração um desejo por ela. Tal desejo produz pecado no servo de Deus, pois é mau e terrível que um espírito casto e já provado deseje uma obra impura.”
A correção da casa de Hermas
1A mulher continuou: “Deus não se indignou contigo por causa disso apenas, mas porque tua casa se desviou contra o Senhor e contra ti, e tu não a corrigiste. Embora amasses teus filhos, não os advertiste; permitiste que se corrompessem gravemente. Por isso o Senhor está indignado contigo. Porém ele curará os males cometidos em tua casa.”
2“Por causa dos pecados deles, foste abatido pelos negócios deste mundo. Mas a misericórdia do Senhor teve compaixão de ti e de tua casa; ele te fortalecerá e te firmará em sua glória. Não sejas descuidado. Cria coragem e consola tua casa. Como o ferreiro golpeia o metal e realiza sua obra, assim a palavra justa, dita dia após dia, vence toda iniquidade.”
3“Não cesses de admoestar teus filhos. Se eles se arrependerem de todo o coração, serão inscritos com os santos no Livro da Vida.” Depois disso, ela perguntou: “Queres ouvir-me ler?” Eu respondi: “Quero, senhora.” Então ouvi palavras magníficas e terríveis, que minha memória não pôde reter por completo. As últimas, porém, guardei, porque eram úteis e suaves.
4“Eis o Deus dos poderes, que por sua força invisível e por sua grande sabedoria criou o mundo; por seu conselho glorioso revestiu a criação de beleza; por sua palavra poderosa firmou os céus e fundou a terra sobre as águas. Ele criou sua santa Igreja, que abençoou. Ele remove céus, montes, colinas e mares, e torna tudo plano diante de seus eleitos, a fim de conceder-lhes a promessa com grande glória e alegria, se guardarem os mandamentos que receberam com fé.”
Partida da mulher
1Quando terminou a leitura, a mulher levantou-se da cadeira. Quatro jovens vieram, carregaram a cadeira e partiram para o oriente. Ela me chamou, tocou meu peito e perguntou: “Agradou-te a minha leitura?” Eu disse: “As últimas palavras me agradaram; as primeiras foram duras e severas.”
2Ela respondeu: “As últimas são para os justos; as primeiras, para os pagãos e apóstatas.” Enquanto falava, apareceram dois homens, ergueram-na sobre os ombros e a levaram para o lugar da cadeira, ao oriente. Ela partiu com rosto alegre e, ao afastar-se, disse: “Sê firme, Hermas.”
O livro a ser copiado
1No ano seguinte, caminhando para o campo, lembrei-me da visão anterior. De novo o Espírito me levou ao mesmo lugar. Chegando ali, dobrei os joelhos, orei ao Senhor e glorifiquei seu nome, porque me julgara digno de conhecer meus pecados passados.
2Ao levantar-me da oração, vi diante de mim a mesma mulher idosa, lendo um livro. Ela me disse: “Podes levar essas coisas aos eleitos de Deus?” Respondi: “Senhora, não consigo guardar tanto na memória; dá-me o livro, e eu o copiarei.” Ela disse: “Toma-o e depois me devolverás.” Fui a uma parte do campo e o transcrevi letra por letra, embora não compreendesse bem todas as sílabas.
3Quando terminei a cópia, o livro foi subitamente arrancado de minhas mãos; mas não vi quem o tomou.
A mensagem do livro
1Quinze dias depois, tendo jejuado e orado muito ao Senhor, foi-me revelado o sentido do escrito. Ele dizia: “Tua descendência, Hermas, pecou contra Deus; blasfemaram contra o Senhor e, em sua grande maldade, traíram seus pais. Não tiraram proveito de sua traição; antes acrescentaram aos pecados desejos impuros, e suas iniquidades se completaram.”
2“Faze conhecer estas palavras a teus filhos e à tua esposa, que deve ser para ti como irmã. Ela não refreia a língua, com a qual pratica injustiça; mas ao ouvir estas palavras, dominar-se-á e alcançará misericórdia.”
3“Depois que lhes anunciares estas palavras, serão perdoados os pecados que cometeram antes; e perdão será concedido a todos os santos que pecaram até este dia, se se arrependerem de todo o coração e afastarem a dúvida de suas mentes. O arrependimento dos justos tem limite, mas aos gentios permanece aberto até o fim.”
4“Dize aos que presidem a Igreja que endireitem seus caminhos em justiça, para receberem plenamente as promessas com grande glória. Permanecei firmes, vós que praticais a justiça, e não duvideis, para que vossa passagem seja com os santos anjos. Felizes os que suportarem a grande tribulação que virá; felizes os que não negarem a própria vida.”
Não guardar ressentimento
1“Quanto a ti, Hermas, não te lembres das injúrias de teus filhos, nem abandones tua irmã, para que sejam purificados de seus pecados antigos. Eles serão instruídos com instrução justa, se tu não guardares rancor. A lembrança das ofensas opera morte.”
2“Tu suportaste grandes tribulações por causa das transgressões de tua casa, pois foste descuidado e te ocupaste em negócios maus. Contudo és salvo porque não te afastaste do Deus vivo; tua simplicidade e teu domínio próprio te conservaram. Essas virtudes salvarão todos os que andarem com inocência e simplicidade.”
3“Dize a Máximo: Eis que vem a tribulação. Se te parecer bem, nega outra vez. O Senhor está perto dos que se convertem a ele.”
A mulher é a Igreja
1Depois disso, enquanto eu dormia, foi-me dada uma revelação. Um jovem de bela aparência perguntou-me: “Quem pensas que é a mulher idosa de quem recebeste o livro?” Respondi: “A Sibila.” Ele disse: “Estás enganado; não é a Sibila.” Perguntei: “Quem é, então?” Ele respondeu: “É a Igreja.”
2Perguntei: “Por que ela é idosa?” Ele respondeu: “Porque foi criada antes de todas as coisas; por causa dela o mundo foi formado.” Depois vi outra visão em minha casa: a mulher veio e perguntou se eu havia dado o livro aos presbíteros. Respondi que não. Ela disse: “Fizeste bem, pois ainda tenho palavras a acrescentar.”
3“Quando eu terminar todas as palavras, os eleitos as conhecerão por teu intermédio. Escreverás, pois, dois livros: enviarás um a Clemente e outro a Grapte. Clemente o enviará às cidades de fora, pois isso lhe foi confiado; Grapte instruirá as viúvas e os órfãos; tu, porém, o lerás nesta cidade, com os presbíteros que presidem a Igreja.”
O lugar da revelação
1Depois de muitos jejuns, pedi ao Senhor que me mostrasse a revelação prometida pela mulher idosa. Na mesma noite ela apareceu e disse: “Como desejas conhecer tudo, vai ao campo onde costumas ficar. Por volta da quinta hora aparecerei e te mostrarei o que deves ver.” Perguntei para onde deveria ir, e ela respondeu: “A qualquer lugar que quiseres.”
2Fui ao campo e escolhi um lugar conveniente. Antes mesmo que eu mencionasse o local, ela disse: “Virei onde desejas.” Cheguei à hora marcada e vi ali uma cadeira de marfim, com almofada de linho e cobertura fina. Como não havia ninguém, tremi de temor; mas, lembrando-me da glória de Deus, recobrei ânimo, dobrei os joelhos e confessei meus pecados.
3Então a mulher veio, acompanhada dos seis jovens que eu vira antes. Ficou atrás de mim enquanto eu orava e, tocando-me, disse: “Hermas, cessa de orar apenas por teus pecados; ora pela justiça, para que tua casa participe dela.” Tomou-me pela mão, levou-me à cadeira e disse aos jovens: “Ide e edificai.”
A torre construída sobre as águas
1Quando ficamos a sós, ela disse: “Senta-te aqui.” Eu respondi: “Senhora, permite que meus anciãos se sentem primeiro.” Ela disse: “Faz o que te ordeno: senta-te.” Quis sentar-me à direita, mas ela me indicou a esquerda. Como eu me entristecesse, ela disse: “O lugar à direita pertence aos que já agradaram a Deus e sofreram por seu nome. Tu ainda tens muito a realizar.”
2Então levantou uma vara brilhante e perguntou: “Vês algo grande?” Respondi: “Nada, senhora.” Ela disse: “Não vês, diante de ti, uma grande torre sendo edificada sobre as águas, com pedras quadradas e resplandecentes?” A torre era construída pelos seis jovens que estavam com ela.
3Multidões traziam pedras: algumas vinham das profundezas, outras da terra. As que vinham das profundezas eram colocadas diretamente no edifício, pois estavam polidas e se ajustavam perfeitamente; uniam-se de tal modo que as juntas não apareciam, e a torre parecia feita de uma só pedra.
4As pedras tiradas da terra tinham destinos diversos: algumas eram rejeitadas, outras usadas, outras cortadas e lançadas para longe. Vi ainda muitas pedras ao redor da torre: umas ásperas, outras rachadas, outras curtas demais, outras redondas e brancas, mas impróprias para o edifício. Algumas rolavam para caminhos sem trilha; outras caíam no fogo; outras ficavam perto da água, desejando entrar nela, mas sem conseguir.
O sentido da torre
1Quando a mulher quis retirar-se, eu disse: “Que proveito tenho em ver tudo isso, se não sei o que significa?” Ela respondeu: “És astuto, desejando saber tudo sobre a torre.” Eu disse: “Sim, senhora, para contar a meus irmãos, para que conheçam o Senhor em grande glória.”
2Ela disse: “Muitos ouvirão; alguns se alegrarão, outros chorarão. Mas até os que chorarem, se ouvirem e se arrependerem, também se alegrarão. A torre que vês sendo edificada sou eu, a Igreja, que te apareceu antes e agora. Pergunta o que quiseres sobre a torre, e eu te revelarei, para que te alegres com os santos.”
3Perguntei: “Por que a torre é construída sobre as águas?” Ela respondeu: “Porque a vossa vida foi salva e será salva pela água. A torre está fundada sobre a palavra do nome todo-poderoso e glorioso, e é mantida unida pelo poder invisível do Senhor.”
Os jovens e as pedras
1Perguntei então sobre os seis jovens que edificavam. Ela disse: “São os santos anjos de Deus, criados primeiro, aos quais o Senhor entregou toda a criação para fazê-la crescer, edificá-la e governá-la. Por meio deles a construção da torre será concluída.”
2Perguntei sobre os homens que traziam as pedras. Ela respondeu: “Também são anjos santos. Mas os seis são superiores a eles. Quando a edificação terminar, todos juntos se alegrarão em torno da torre, porque a construção foi realizada.”
3Perguntei sobre as pedras que vinham das profundezas e eram ajustadas ao edifício. Ela disse: “São aqueles que sofreram pelo nome do Senhor.” “E as outras pedras polidas?” Ela respondeu: “São os que caminharam na retidão do Senhor e guardaram seus mandamentos.”
Classes de pedras
1“As pedras trazidas e colocadas na torre são os recém-convertidos à fé e os fiéis que foram instruídos pelos anjos para fazer o bem. Como não se afastaram do Senhor, são aptos para o edifício.”
2“As pedras rejeitadas perto da torre são os que pecaram e desejam arrepender-se. Não foram lançadas para muito longe, pois serão úteis à construção se se arrependerem agora. Os que se arrependerem serão fortes na fé, contanto que se arrependam enquanto a torre ainda está sendo edificada. Depois que a construção terminar, não haverá mais lugar para eles.”
3“As pedras cortadas e lançadas para longe são os filhos da iniquidade. Creram com hipocrisia, e toda maldade permaneceu neles. Por isso não há salvação para eles enquanto persistirem na corrupção.”
Pedras rachadas, curtas e redondas
1“As pedras rachadas são aqueles que guardam rancor uns contra os outros, não vivem em paz e escondem inimizades no coração. As pedras curtas são aqueles que creram, mas ainda conservam parte de si na injustiça; por isso não se ajustam ao edifício.”
2“As pedras brancas e redondas são os que têm fé, mas também possuem riquezas deste mundo. Quando chega a tribulação, negam o Senhor por causa de suas riquezas e negócios. Só poderão servir para o edifício se forem cortadas suas riquezas, como uma pedra redonda precisa ser talhada para tornar-se quadrada.”
3Eu perguntei: “Senhora, então os ricos não podem ser salvos?” Ela respondeu: “Podem, se cortarem de si o apego às riquezas e forem úteis ao Senhor. Assim como a pedra perde a forma redonda e se torna adequada à torre, também eles, quando tiram de si o excesso, tornam-se aptos para Deus.”
Os caminhos, o fogo e a água
1“As pedras lançadas no caminho e depois desviadas para lugar sem trilha são os que creram, mas por causa de suas dúvidas abandonaram o caminho verdadeiro. Imaginam encontrar caminho melhor, mas se perdem em lugares sem passagem.”
2“As que caem no fogo e queimam são os que se afastaram para sempre do Deus vivo, entregando-se aos desejos e paixões. Não lhes veio ao coração o arrependimento, pois estão presos às obras que praticam.”
3“As que caem perto da água e não conseguem entrar nela são os que ouviram a palavra e quiseram ser batizados em nome do Senhor, mas depois, lembrando-se da pureza exigida pela verdade, voltaram a seus desejos maus. Por isso não entram na água.”
A aparência da mulher
1Depois dessas explicações, perguntei por que ela mudava de aparência. Ela disse: “Na primeira visão eu te apareci idosa e fraca, porque o vosso espírito estava envelhecido e enfraquecido por causa de vossos pecados e dúvidas. Como os idosos já não esperam renovar-se, assim vós estáveis abatidos pelos cuidados do mundo.”
2“Depois, quando ouvistes a revelação e vos arrependestes, eu apareci mais jovem, mas ainda com cabelos brancos; pois vosso espírito começou a reviver, embora ainda houvesse em vós fragilidade.”
3“Por fim, apareci como uma jovem formosa, pois os que se arrependem de todo o coração são renovados, tornam-se simples como crianças e recuperam a alegria. Assim a Igreja se alegra quando seus filhos voltam ao Senhor.”
Exortação à perseverança
1“Portanto, Hermas, fortalece os que se arrependeram. Admoesta todos a permanecerem simples, sem duplicidade, sem rancor, sem dúvidas. Os que guardarem estas palavras viverão para Deus; os que as desprezarem terão sua própria condenação.”
2Eu me alegrei muito com essas coisas e desejei ainda perguntar. Ela, porém, disse: “Basta por ora. Não sejas insaciável por revelações. Cuida antes de praticar o que recebeste.” E, dizendo isso, partiu com os jovens.
A besta monstruosa
1Vinte dias depois da visão anterior, eu ia pelo caminho de Cumas, louvando as criaturas de Deus. De repente vi diante de mim uma besta enorme, como um monstro capaz de destruir cidades. Tinha a cabeça como vaso de barro, e de sua boca saíam gafanhotos de fogo. Tremi, e lembrei-me das palavras que ouvira.
2A besta vinha contra mim com grande ruído. Então me revesti de fé, entreguei-me ao Senhor e, tomando coragem, passei por ela. A besta estendeu-se no chão e não me tocou. Ao passar, vi que tinha quatro cores: preta, vermelha como fogo e sangue, dourada e branca.
A jovem e o sentido da besta
1Depois que passei, encontrei uma jovem adornada como noiva, que me saudou e disse: “Salve, homem.” Reconheci que era a Igreja. Perguntei por que aparecia tão jovem, e ela respondeu: “Porque os que se arrependem tornam a Igreja jovem e bela diante do Senhor.”
2Perguntei sobre a besta. Ela disse: “A besta representa uma grande tribulação que se aproxima. Escapaste dela porque entregaste teu cuidado a Deus e abriste teu coração ao Senhor. Anuncia aos eleitos que, se tiverem fé e se arrependerem de todo o coração, escaparão dessa tribulação.”
As quatro cores
1“A cor preta representa este mundo em que habitais. A cor vermelha como fogo e sangue representa que este mundo deve perecer por sangue e fogo. A cor dourada representa os que fugiram deste mundo e foram provados como ouro no fogo. A cor branca representa o mundo vindouro, no qual habitarão os eleitos de Deus.”
2“Tu, portanto, anuncia estas coisas. Os que ouvirem e se arrependerem serão inscritos no livro da vida. Guarda em teu coração aquilo que viste e sê fiel ao Senhor.”
A chegada do Pastor
1Depois de orar em minha casa e sentar-me sobre o leito, entrou um homem de aparência venerável, vestido como pastor, coberto com pele branca, trazendo alforje nos ombros e cajado na mão. Saudou-me, e eu o saudei. Sentou-se ao meu lado e disse: “Fui enviado pelo anjo santíssimo para habitar contigo pelo resto de tua vida.”
2Pensei que ele vinha para me provar, e perguntei: “Quem és tu? Sei a quem fui entregue.” Ele respondeu: “Não me reconheces? Eu sou o Pastor a quem foste confiado.” Enquanto falava, sua forma mudou, e eu o reconheci. Fiquei confuso e tomado de temor. Ele disse: “Não te perturbes. Fui enviado para mostrar-te os mandamentos e as semelhanças.”
3“Escreve tudo o que eu te ordenar. Primeiro escreverás os mandamentos e as semelhanças; as outras coisas escreverás conforme te forem mostradas. Se guardares estes mandamentos e andares neles, viverás para Deus; e todos os que os guardarem viverão para Deus.”