Deuterocanônicos

Judite

Tradução própria do Papel Amassado · pt-BR

1Capítulo 1

1Palavras de Judite, filha de Merari, filho de Ox, filho de José, filho de Oziel, filho de Elcias, filho de Ananias, filho de Gedeão, filho de Rafaím, filho de Aquitobe, filho de Eliú, filho de Eliabe, filho de Natanael, filho de Salamiel, filho de Sarasadai, filho de Israel.

2No décimo segundo ano do reinado de Nabucodonosor, que reinava sobre os assírios em Nínive, Arfaxade reinava sobre os medos em Ecbátana.

3Arfaxade edificou ao redor de Ecbátana muralhas de pedras talhadas, com torres altas e portas largas, para fortalecer a cidade.

4Nabucodonosor fez guerra contra Arfaxade na grande planície que fica na região de Ragau.

5Uniram-se a ele todos os habitantes da região montanhosa, do Eufrates, do Tigre, do Hidaspes e das planícies de Arioque, rei dos elimeus.

6Então Nabucodonosor enviou mensageiros a todos os povos: aos persas, aos ocidentais, aos cilícios, aos damascenos, aos libaneses, aos povos do Carmelo, de Galaad e da Galileia superior.

7Também mandou chamar os povos da grande planície de Esdrelom, os samaritanos, os que estavam além do Jordão, até Jerusalém, Betane, Quelus, Cades e o rio do Egito.

8Mas todos desprezaram a palavra de Nabucodonosor e não se juntaram a ele para a guerra, pois não o temiam e o consideravam apenas um homem.

9Nabucodonosor ficou muito irritado contra toda aquela terra e jurou por seu trono e por seu reino que se vingaria de todas aquelas regiões.

10No décimo sétimo ano, reuniu seu exército contra Arfaxade, venceu-o em batalha e desbaratou todo o seu poder.

11Tomou suas cidades, chegou a Ecbátana, ocupou suas torres, saqueou suas ruas e transformou sua beleza em vergonha.

12Capturou Arfaxade nas montanhas de Ragau, feriu-o com lanças e o destruiu naquele dia.

13Depois voltou para Nínive com todo o seu exército e celebrou grande banquete por muitos dias, ele e os seus guerreiros.

2Capítulo 2

1No décimo oitavo ano, no vigésimo segundo dia do primeiro mês, falou-se na casa de Nabucodonosor, rei dos assírios, que ele se vingaria de toda a terra.

2Chamou todos os seus ministros e nobres, expôs-lhes seu plano secreto e decretou a destruição de todos os povos que não obedeceram à sua palavra.

3Quando terminou o conselho, chamou Holofernes, chefe supremo do seu exército, o segundo depois dele, e disse:

4Assim fala o grande rei, senhor de toda a terra: Sai da minha presença e toma contigo homens valentes, cento e vinte mil soldados de infantaria e doze mil cavaleiros.

5Vai contra toda a terra do ocidente, porque não obedeceram à minha ordem.

6Ordena-lhes que preparem terra e água, pois sairei em minha ira contra eles e cobrirei toda a face da terra com os pés dos meus soldados.

7Entregarei os seus feridos aos saqueadores, os seus mortos encherão os vales, e rios e torrentes transbordarão com seus cadáveres.

8Levarei seus cativos até os confins de toda a terra.

9Sai primeiro e toma para mim todos os seus territórios. Se se entregarem a ti, guarda-os para mim até o dia de sua punição.

10Mas contra os rebeldes não tenhas piedade: entrega-os à morte e ao saque em toda a terra.

11Porque, pela minha vida e pelo poder do meu reino, falei, e com minha própria mão cumprirei.

12Tu, portanto, não transgridas nenhuma palavra do teu senhor, mas realiza tudo exatamente como te ordenei, sem demora.

13Holofernes saiu da presença do seu senhor, chamou todos os chefes, generais e oficiais do exército assírio,

14reuniu os homens escolhidos, como o rei ordenara, cento e vinte mil de infantaria e doze mil arqueiros a cavalo.

15Organizou-os como se organiza uma multidão para a guerra.

16Tomou camelos, jumentos e mulas para bagagens, e imenso número de ovelhas, bois e cabras para provisão.

17Cada homem recebeu alimento em abundância, e muito ouro e prata foram tirados da casa do rei.

18Partiu ele com todo o exército, carros e cavaleiros, para abrir caminho diante do rei Nabucodonosor e cobrir a face da terra para o ocidente.

3Capítulo 3

1Então os reis e príncipes das cidades e províncias ouviram tudo o que Holofernes fazia.

2Enviaram mensageiros a ele com palavras de paz, dizendo: Eis-nos aqui, servos do grande rei Nabucodonosor; deita sobre nós o que te parecer bom.

3Nossas casas, nossas terras, nossos campos, nossos rebanhos e todas as nossas cidades estão diante de ti; usa-os como quiseres.

4Também nossos filhos e nossas filhas são teus servos; trata-os conforme for agradável aos teus olhos.

5Holofernes desceu às regiões marítimas com o seu exército e pôs guarnições nas cidades fortes.

6Tomou delas homens escolhidos como auxiliares.

7Os povos o receberam com coroas, danças e tamborins.

8Mesmo assim, ele devastou todos os seus santuários e cortou os bosques sagrados, pois recebera ordem de destruir todos os deuses da terra.

9Queria que somente Nabucodonosor fosse chamado deus por todas as nações, e que todos os povos o invocassem como senhor.

10Depois chegou perto de Esdrelom, diante de Dotaim, que fica próxima da grande cadeia da Judeia.

11Acampou entre Geba e Citópolis, e permaneceu ali muitos dias, reunindo os suprimentos do exército.

4Capítulo 4

1Os filhos de Israel, que habitavam na Judeia, ouviram tudo o que Holofernes fizera às nações e como destruíra seus santuários.

2Foram tomados de grande medo por causa dele e tremeram por Jerusalém e pelo templo do Senhor seu Deus.

3Pois haviam voltado há pouco do exílio, e todo o povo da Judeia se reunira novamente; os vasos, o altar e o templo haviam sido consagrados depois da profanação.

4Enviaram mensageiros a toda a Samaria, a Kona, Bete-Horom, Belmain, Jericó, Choba, Esora e ao vale de Salém.

5Ocuparam todos os altos montes, fortificaram as aldeias e ajuntaram alimentos para a guerra, porque seus campos tinham sido recém-colhidos.

6O sumo sacerdote Joaquim, que estava em Jerusalém, escreveu aos habitantes de Betúlia e Betomestaim, que ficam diante de Esdrelom, perto da planície de Dotaim.

7Ordenou-lhes que ocupassem as passagens da montanha, pois por elas se entrava na Judeia, e era fácil impedir a subida, porque a passagem era estreita.

8Os filhos de Israel fizeram como lhes ordenara Joaquim, o sumo sacerdote, e o conselho dos anciãos de todo Israel que estava em Jerusalém.

9Todo homem de Israel clamou a Deus com grande fervor, humilharam-se com jejuns, e vestiram saco eles, suas mulheres, seus filhos, seus animais, seus estrangeiros, seus trabalhadores e seus servos.

10Todo homem, mulher e criança de Israel que morava em Jerusalém caiu diante do templo, pôs cinza sobre a cabeça e estendeu saco diante do Senhor.

11Cobriram o altar com saco e clamaram ao Deus de Israel, pedindo que não entregasse seus filhos ao saque, suas mulheres à presa, as cidades da herança à destruição e o santuário à profanação.

12O Senhor ouviu sua voz e olhou para a sua aflição; o povo jejuou por muitos dias em toda a Judeia e em Jerusalém diante do santuário.

13O sumo sacerdote Joaquim e todos os sacerdotes que serviam diante do Senhor, vestidos de saco, ofereciam o holocausto contínuo, os votos e as ofertas voluntárias do povo.

14Com cinza sobre os turbantes, clamavam ao Senhor com toda a força para que visitasse com bondade toda a casa de Israel.

5Capítulo 5

1Foi anunciado a Holofernes, chefe do exército assírio, que os filhos de Israel se preparavam para a guerra e haviam fechado as passagens dos montes.

2Ele ficou furioso e chamou todos os príncipes de Moabe, os chefes de Amom e todos os governadores da região marítima.

3Disse-lhes: Filhos de Canaã, digam-me: que povo é este que habita a montanha? Que cidades são as suas? Qual é o tamanho do seu exército? Em que está seu poder e sua força? Que rei os governa?

4Por que somente eles, entre todos os povos do ocidente, não vieram ao meu encontro?

5Então Aquior, chefe de todos os filhos de Amom, respondeu: Ouça, meu senhor, a palavra do teu servo, e eu te direi a verdade sobre este povo que mora perto de ti, nas montanhas.

6Este povo descende dos caldeus.

7Antes habitaram na Mesopotâmia, porque não quiseram seguir os deuses de seus pais que estavam na terra dos caldeus.

8Abandonaram o caminho de seus antepassados e adoraram o Deus do céu, o Deus que conheceram; por isso foram expulsos de entre os deuses de seus pais e habitaram na Mesopotâmia por muitos dias.

9Depois o seu Deus lhes ordenou que saíssem de sua morada e fossem para a terra de Canaã. Habitaram ali e enriqueceram em ouro, prata e muitos rebanhos.

10Desceram ao Egito, porque uma fome cobriu a terra de Canaã, e ali se multiplicaram.

11O rei do Egito levantou-se contra eles, agiu com astúcia, oprimiu-os com trabalho pesado e fez deles escravos.

12Eles clamaram ao seu Deus, e ele feriu toda a terra do Egito com pragas sem cura; então os egípcios os expulsaram.

13Deus secou diante deles o mar Vermelho, conduziu-os pelo caminho do Sinai e de Cades-Barneia, e expulsou todos os habitantes do deserto.

14Habitaram na terra dos amorreus, destruíram com sua força todos os hesbonitas e, passando o Jordão, tomaram posse de toda a montanha.

15Expulsaram diante de si cananeus, ferezeus, jebuseus, siquemitas e gergeseus, e habitaram ali muitos dias.

16Enquanto não pecaram contra o seu Deus, prosperaram, porque o Deus que odeia a injustiça estava com eles.

17Mas quando se afastaram do caminho que lhes havia ordenado, foram destruídos em muitas guerras e levados cativos para terra estrangeira; o templo do seu Deus foi arrasado, e suas cidades foram tomadas pelos inimigos.

18Agora voltaram para o seu Deus, subiram dos lugares por onde foram dispersos, retomaram Jerusalém, onde está o seu santuário, e habitam na montanha, pois estava deserta.

19Portanto, meu senhor, se houver erro neste povo e pecarem contra o seu Deus, veremos que há neles tropeço, e então subiremos e os venceremos.

20Mas se não houver maldade neste povo, passe adiante, meu senhor, para que o Senhor deles não os proteja, e o Deus deles não esteja por eles; então seremos motivo de escárnio diante de toda a terra.

6Capítulo 6

1Quando Aquior acabou de falar, todo o povo que cercava a tenda murmurou; os nobres de Holofernes e todos os habitantes do litoral e de Moabe queriam despedaçá-lo.

2Diziam: Não teremos medo dos filhos de Israel, pois são povo sem força nem poder para uma batalha firme.

3Subiremos contra eles, e serão como um bocado para todo o teu exército, senhor Holofernes.

4Holofernes, então, disse a Aquior: Quem és tu, Aquior, e vós, mercenários de Efraim, para profetizar entre nós hoje e dizer que não devemos guerrear contra Israel porque o Deus deles os defenderá?

5Quem é deus senão Nabucodonosor? Ele enviará seu poder e os exterminará da face da terra; o Deus deles não os livrará.

6Nós, servos dele, os feriremos como um só homem. Eles não resistirão à força dos nossos cavalos.

7Nós os queimaremos, seus montes ficarão embriagados com o sangue deles, e suas planícies se encherão de mortos.

8Quanto a ti, Aquior, mercenário amonita, que disseste estas palavras no dia da tua iniquidade, não verás mais meu rosto até que eu me vingue desse povo que veio do Egito.

9Então a espada do meu exército atravessará os teus lados, e cairás entre os feridos deles quando eu voltar.

10Meus servos te levarão à região montanhosa e te deixarão numa das cidades das passagens.

11Não morrerás até seres destruído com eles.

12Se no teu coração esperas que não sejam capturados, não te aflijas. Eu falei, e nenhuma das minhas palavras cairá por terra.

13Ordenou Holofernes que seus servos prendessem Aquior e o levassem a Betúlia, entregando-o nas mãos dos filhos de Israel.

14Os servos o tomaram, levaram-no do acampamento para a planície, da planície para a montanha, e chegaram às fontes abaixo de Betúlia.

15Quando os homens da cidade os viram, pegaram suas armas e saíram até o cume do monte; todos os atiradores de funda guardavam a subida, lançando pedras contra eles.

16Os servos de Holofernes se aproximaram por baixo do monte, amarraram Aquior e o deixaram caído ao pé da montanha, e voltaram para o seu senhor.

17Os israelitas desceram da cidade, aproximaram-se dele, soltaram-no, conduziram-no a Betúlia e o apresentaram aos chefes da cidade.

18Naqueles dias eram chefes Ozias, filho de Miqueias, da tribo de Simeão; Cabris, filho de Gotoniel; e Carmis, filho de Melquiel.

19Reuniram todos os anciãos da cidade, e também os jovens e as mulheres correram para a assembleia. Colocaram Aquior no meio do povo, e Ozias perguntou-lhe o que havia acontecido.

20Aquior contou-lhes as palavras do conselho de Holofernes e tudo que dissera aos chefes assírios, e como Holofernes se vangloriara contra a casa de Israel.

21O povo caiu por terra, adorou a Deus e clamou: Senhor Deus do céu, olha a soberba deles e tem piedade da humilhação do nosso povo.

22Confortaram Aquior e o louvaram muito.

23Ozias o levou da assembleia para sua casa e deu um banquete aos anciãos. Durante toda aquela noite invocaram o Deus de Israel por socorro.

7Capítulo 7

1No dia seguinte, Holofernes ordenou a todo o seu exército e a todos os aliados que subissem contra Betúlia, ocupassem as passagens da montanha e fizessem guerra contra os filhos de Israel.

2Todos os guerreiros partiram naquele dia; seu exército tinha cento e setenta mil soldados de infantaria e doze mil cavaleiros, além das bagagens e dos homens que iam a pé entre eles.

3Acamparam no vale perto de Betúlia, junto à fonte, e se espalharam desde Dotaim até Belbaim e, em largura, desde Betúlia até Cíamon, diante de Esdrelom.

4Quando os filhos de Israel viram aquela multidão, ficaram muito perturbados e disseram uns aos outros: Agora eles lamberão toda a face da terra; nem os montes altos, nem os vales, nem as colinas suportarão seu peso.

5Cada um tomou suas armas, acenderam fogos sobre as torres e permaneceram de guarda durante toda a noite.

6No segundo dia, Holofernes fez sair toda a cavalaria à vista dos filhos de Israel que estavam em Betúlia.

7Examinou as subidas da cidade, reconheceu as fontes de água, ocupou-as e colocou nelas guarnições de soldados.

8Então chegaram a ele os chefes dos filhos de Esaú, os chefes dos moabitas e os capitães da região costeira, e disseram:

9Ouça agora uma palavra, meu senhor, para que não haja perda no teu exército.

10Este povo dos filhos de Israel não confia em lanças, mas na altura dos montes onde habita, pois não é fácil subir aos seus cumes.

11Não combatas contra eles em batalha ordenada, e não cairá um só dos teus homens.

12Fica no teu acampamento e guarda todos os homens do teu exército; que teus servos tomem posse da fonte que nasce ao pé da montanha.

13Pois dali bebem todos os habitantes de Betúlia. A sede os consumirá, e eles entregarão a cidade.

14Nós e nosso povo subiremos aos cumes dos montes próximos e acamparemos ali, para vigiar que nenhum homem saia da cidade.

15Eles, suas mulheres e seus filhos serão consumidos pela fome; antes que a espada chegue a eles, cairão nas ruas de sua cidade.

16Assim lhes pagarás duramente por sua rebeldia, porque não vieram ao teu encontro em paz.

17Estas palavras agradaram a Holofernes e a todos os seus servos, e ele decidiu fazer como disseram.

18O acampamento dos amonitas se moveu, com cinco mil assírios; acamparam no vale e tomaram as águas e as fontes dos filhos de Israel.

19Os filhos de Esaú e os filhos de Amom subiram e acamparam na montanha diante de Dotaim; enviaram parte deles para o sul e para o oriente, diante de Egrebel, perto de Chusi, junto ao ribeiro Mocmur.

20Os demais assírios acamparam na planície e cobriram toda a face da terra; suas tendas e bagagens formavam uma multidão imensa.

21Os filhos de Israel clamaram ao Senhor seu Deus, porque o ânimo deles se abateu, pois todos os inimigos os cercavam e não havia como escapar do meio deles.

22Todo o acampamento assírio, infantaria, carros e cavalaria, permaneceu ao redor deles por trinta e quatro dias; e todos os reservatórios de água de Betúlia secaram.

23As cisternas se esvaziaram, e já não havia água para beber nem mesmo por um dia, porque lhes davam de beber por medida.

24Seus filhos pequenos desfaleciam, mulheres e jovens caíam de sede pelas ruas e junto às portas da cidade; não havia mais força neles.

25Todo o povo se reuniu contra Ozias e os chefes da cidade: jovens, mulheres e crianças. Gritaram em alta voz e disseram diante de todos os anciãos:

26Que Deus julgue entre nós e vós! Fizestes-nos grande mal, porque não propusestes paz aos assírios.

27Agora não há quem nos ajude; Deus nos vendeu às mãos deles, para sermos prostrados diante deles pela sede e por grande destruição.

28Chamem-nos agora e entreguem toda a cidade ao povo de Holofernes e a todo o seu exército para saque.

29Melhor é sermos feitos presa deles; seremos escravos, mas viveremos, e não veremos a morte dos nossos filhos diante dos nossos olhos, nem nossas mulheres e crianças perderem a vida.

30Tomamos por testemunhas contra vós o céu e a terra, o nosso Deus e o Senhor de nossos pais, que nos castiga segundo nossos pecados: entregai a cidade ainda hoje.

31Houve grande choro no meio da assembleia, e clamaram em alta voz ao Senhor Deus.

32Ozias disse-lhes: Coragem, irmãos. Suportemos ainda cinco dias; nesse tempo o Senhor nosso Deus voltará sua misericórdia para nós, pois não nos abandonará para sempre.

33Se esses dias passarem e não vier socorro, farei conforme dissestes.

34Despediu o povo, cada um para o seu posto; os homens foram às muralhas e torres, e as mulheres e crianças voltaram para suas casas. Mas a cidade estava em grande humilhação.

8Capítulo 8

1Naqueles dias ouviu isso Judite, filha de Merari, filho de Ox, filho de José, filho de Oziel, filho de Elcias, filho de Ananias, filho de Gedeão, filho de Rafaím, filho de Aquitobe, filho de Eliú, filho de Eliabe, filho de Natanael, filho de Salamiel, filho de Sarasadai, filho de Israel.

2Seu marido fora Manassés, da sua tribo e família, que morrera nos dias da colheita da cevada.

3Ele estava no campo, supervisionando os que amarravam os feixes, quando o calor lhe feriu a cabeça; caiu doente em sua cama e morreu em Betúlia, sua cidade.

4Sepultaram-no com seus pais, no campo entre Dotaim e Balamon.

5Judite ficou viúva em sua casa por três anos e quatro meses.

6Fez para si uma tenda no terraço da casa, vestiu saco sobre os rins e usava roupas de viuvez.

7Jejuava todos os dias de sua viuvez, exceto nas vésperas de sábado, nos sábados, nas vésperas de lua nova, nas luas novas e nas festas da casa de Israel.

8Era formosa de aparência e muito bela de rosto. Seu marido Manassés lhe deixara ouro, prata, servos, servas, gado e campos, e ela permanecia com esses bens.

9Ninguém falava mal dela, pois temia muito a Deus.

10Judite ouviu as palavras duras que o povo dissera contra o chefe, quando perderam o ânimo por falta de água, e soube também tudo o que Ozias lhes prometera, jurando entregar a cidade aos assírios depois de cinco dias.

11Mandou chamar Cabris e Carmis, anciãos da cidade.

12Quando vieram a ela, disse-lhes: Ouvi-me, chefes dos moradores de Betúlia. Não é reta a palavra que dissestes hoje ao povo, nem o juramento que fizestes entre Deus e vós, prometendo entregar a cidade aos inimigos se o Senhor não vos socorrer dentro destes dias.

13Quem sois vós para tentar a Deus neste dia e colocar-vos acima dele entre os filhos dos homens?

14Agora provais o Senhor Todo-Poderoso, mas jamais entendereis coisa alguma.

15Não podeis sondar a profundidade do coração humano nem alcançar os pensamentos da sua mente; como então sondareis Deus, que fez todas as coisas, e conhecereis sua mente ou compreendereis seu pensamento?

16Não, irmãos. Não provoqueis o Senhor nosso Deus.

17Se ele não quiser socorrer-nos nestes cinco dias, tem poder para defender-nos quando quiser, ou para destruir-nos diante dos nossos inimigos.

18Não imponhais garantias ao conselho do Senhor nosso Deus, pois Deus não é como homem para ser ameaçado, nem como filho de homem para ser pressionado.

19Por isso, esperando dele a salvação, invoquemo-lo para que nos ajude; ele ouvirá a nossa voz se lhe agradar.

20Porque não surgiu em nossa geração, nem há hoje tribo, família, povoado ou cidade entre nós que adore deuses feitos por mãos humanas, como aconteceu nos dias antigos.

21Por isso nossos pais foram entregues à espada e ao saque e caíram com grande ruína diante dos nossos inimigos.

22Mas nós não conhecemos outro Deus além dele; por isso esperamos que não nos despreze, nem a qualquer de nossa nação.

23Se formos capturados, toda a Judeia cairá, o nosso santuário será saqueado, e Deus exigirá de nós a profanação dele.

24O massacre dos nossos irmãos, o cativeiro da terra e a desolação da herança ele fará recair sobre a nossa cabeça entre as nações em que formos escravos.

25Seremos motivo de ofensa e vergonha para todos os que nos dominarem.

26Nosso cativeiro não será em favor, mas o Senhor nosso Deus o tornará em desonra.

27Agora, irmãos, mostremos aos nossos irmãos que a vida deles depende de nós, e que o santuário, o templo e o altar repousam sobre nós.

28Além de tudo, demos graças ao Senhor nosso Deus, que nos prova como provou nossos pais.

29Lembrai-vos do que fez com Abraão, como provou Isaac e o que aconteceu a Jacó na Mesopotâmia da Síria, quando apascentava as ovelhas de Labão, irmão de sua mãe.

30Assim como os provou pelo fogo para examinar o coração deles, também não se vinga de nós; antes, o Senhor corrige os que se aproximam dele.

31Ozias respondeu: Tudo o que disseste falaste com coração bom, e ninguém contestará tuas palavras.

32Não é hoje que tua sabedoria apareceu; desde o princípio dos teus dias todo o povo conhece tua inteligência, porque a disposição do teu coração é boa.

33Mas o povo estava sedento e obrigou-nos a agir como falamos e a fazer um juramento que não podemos quebrar.

34Agora, já que és mulher piedosa, ora por nós ao Senhor, para que envie chuva e encha nossas cisternas, e não desfaleçamos.

35Judite respondeu: Ouvi-me. Farei uma coisa que passará de geração em geração entre os filhos da nossa raça.

36Ficareis esta noite à porta da cidade. Eu sairei com minha serva, e dentro dos dias em que dissestes entregar a cidade aos inimigos, o Senhor visitará Israel pela minha mão.

37Não investigueis o que vou fazer, pois não vos direi até que se cumpra o que realizarei.

38Ozias e os chefes disseram: Vai em paz, e o Senhor Deus esteja diante de ti para vingar-se dos nossos inimigos.

39Retiraram-se da tenda e foram para seus postos.

9Capítulo 9

1Judite caiu com o rosto em terra, pôs cinza sobre a cabeça, descobriu o saco que vestia e clamou ao Senhor em alta voz, no mesmo tempo em que se oferecia em Jerusalém o incenso da tarde.

2Disse: Senhor Deus de meu pai Simeão, a quem deste espada para vingança contra estrangeiros que violaram uma virgem, descobriram-lhe a vergonha e profanaram-lhe o corpo para desonra.

3Tu disseste: Não será assim. E eles fizeram.

4Por isso entregaste seus príncipes à morte e seu leito, que se envergonhou do engano, ao sangue; feriste servos com senhores e senhores em seus tronos.

5Entregaste suas mulheres ao saque, suas filhas ao cativeiro e todos os seus despojos aos teus filhos amados, que foram movidos por zelo por ti.

6Ó Deus, meu Deus, ouve também a mim, viúva.

7Tu fizeste as coisas passadas e estas de agora, e preparaste as futuras. As coisas que pensaste se apresentaram e disseram: Eis-nos aqui.

8Todos os teus caminhos estão prontos, e teus juízos são conhecidos de antemão.

9Eis que os assírios multiplicaram seu poder; exaltam-se com cavalo e cavaleiro, orgulham-se do braço da infantaria, confiam em escudo, lança, arco e funda, e não sabem que tu és o Senhor que despedaça guerras.

10Senhor é o teu nome.

11Quebra a força deles pelo teu poder e derruba seu domínio na tua ira, pois resolveram profanar o teu santuário e contaminar a morada onde repousa o nome da tua glória.

12Derruba com engano de meus lábios o servo juntamente com o príncipe, o príncipe juntamente com seu servo.

13Fere a sua arrogância pela mão de uma mulher.

14Pois tua força não está no número, nem teu poder nos valentes; tu és Deus dos humildes, socorro dos pequenos, defensor dos fracos, protetor dos abandonados e salvador dos desesperados.

15Sim, Deus de meu pai e Deus da herança de Israel, Senhor dos céus e da terra, criador das águas, rei de toda a tua criação, ouve minha oração.

16Faze que minha palavra e meu engano sejam ferida e golpe contra aqueles que decidiram coisas cruéis contra tua aliança, tua casa consagrada, o cume de Sião e a casa possuída por teus filhos.

17Faze todo o teu povo e toda tribo reconhecerem que tu és Deus, Deus de toda força e poder, e que não há outro protetor para a raça de Israel senão tu.

10Capítulo 10

1Depois de clamar ao Deus de Israel e terminar todas estas palavras, Judite levantou-se do lugar onde estava prostrada.

2Chamou sua serva, desceu para a casa onde permanecia nos sábados e dias festivos.

3Tirou o saco que vestia, despiu as roupas de viuvez, lavou o corpo com água, ungiu-se com perfume precioso, penteou os cabelos, pôs uma tiara sobre eles e vestiu as roupas de alegria que usava enquanto vivia Manassés, seu marido.

4Calçou sandálias, pôs braceletes, colares, anéis, brincos e todos os seus enfeites; embelezou-se muito para seduzir os olhos de todos os homens que a vissem.

5Entregou à serva uma pele de vinho, um vaso de azeite, uma bolsa cheia de farinha tostada, figos secos, pães puros e queijo; embrulhou todos os vasos e os pôs sobre ela.

6Saíram para a porta da cidade de Betúlia e encontraram Ozias e os anciãos da cidade, Cabris e Carmis.

7Quando a viram transformada no rosto e mudada nas vestes, ficaram admirados com sua beleza e disseram:

8Que o Deus de nossos pais te conceda favor e cumpra teus planos para glória dos filhos de Israel e exaltação de Jerusalém.

9Ela adorou a Deus e disse: Ordenai que me abram a porta da cidade, e sairei para realizar aquilo de que falastes comigo.

10Ordenaram aos jovens que lhe abrissem, como ela pedira.

11Assim fizeram; Judite saiu, ela e sua serva. Os homens da cidade olharam-na até que desceu a montanha, atravessou o vale e desapareceu de seus olhos.

12Caminhavam pelo vale em linha reta quando uma guarda avançada dos assírios a encontrou.

13Agarraram-na e perguntaram: De que povo és? De onde vens? Para onde vais?

14Ela respondeu: Sou filha dos hebreus, mas estou fugindo deles, porque serão entregues a vós para serem devorados.

15Venho à presença de Holofernes, chefe do vosso exército, para anunciar-lhe palavras verdadeiras. Mostrarei diante dele um caminho pelo qual avançará e dominará toda a região montanhosa sem perder um só homem.

16Quando os homens ouviram suas palavras e viram seu rosto, admiraram-se muito de sua beleza e disseram:

17Salvaste tua vida, apressando-te a descer à presença do nosso senhor. Vai agora à sua tenda; alguns de nós te conduzirão até te entregarem nas mãos dele.

18Quando estiveres diante dele, não temas em teu coração, mas anuncia-lhe conforme tuas palavras, e ele te tratará bem.

19Escolheram dentre eles cem homens para acompanhá-la e à sua serva, e conduziram-nas à tenda de Holofernes.

20Houve grande ajuntamento por todo o acampamento, pois a chegada dela foi anunciada entre as tendas; cercaram-na enquanto ela estava fora da tenda de Holofernes, até que lhe comunicassem.

21Admiravam sua beleza e, por causa dela, admiravam os filhos de Israel; cada um dizia ao seu próximo: Quem desprezaria este povo, que tem entre si tais mulheres? Não convém deixar vivo nenhum homem deles, pois, se escaparem, poderão enganar toda a terra.

22Os guardas de Holofernes e todos os seus servos saíram e a introduziram na tenda.

23Holofernes repousava sobre seu leito, sob cortinado de púrpura, ouro, esmeralda e pedras preciosas.

24Anunciaram-lhe a chegada dela, e ele saiu à entrada da tenda, precedido por lâmpadas de prata.

25Quando Judite entrou diante dele e de seus servos, todos ficaram admirados com a beleza do seu rosto. Ela caiu com o rosto em terra e o adorou; mas seus servos a levantaram.

11Capítulo 11

1Holofernes disse-lhe: Tem confiança, mulher; não temas em teu coração, pois jamais fiz mal a alguém que escolheu servir a Nabucodonosor, rei de toda a terra.

2Agora, se teu povo que habita a montanha não me tivesse desprezado, eu não levantaria minha lança contra eles. Eles fizeram isto contra si mesmos.

3Dize-me por que fugiste deles e vieste a nós. Vieste para salvar-te; tem coragem: viverás esta noite e depois.

4Ninguém te fará mal, mas te tratarão bem, como se trata os servos do meu senhor, o rei Nabucodonosor.

5Judite respondeu: Recebe as palavras de tua serva, e permite que tua escrava fale diante de ti. Não direi mentira alguma ao meu senhor nesta noite.

6Se seguires as palavras de tua serva, Deus realizará por ti uma obra perfeita, e meu senhor não falhará em seus propósitos.

7Viva Nabucodonosor, rei de toda a terra, e viva o seu poder, que te enviou para endireitar toda criatura viva.

8Pois não somente os homens o servirão por teu intermédio; também os animais do campo, o gado e as aves do céu viverão sob Nabucodonosor e toda a sua casa.

9Ouvimos falar da tua sabedoria e da habilidade da tua alma; foi anunciado em toda a terra que somente tu és bom em todo o reino, poderoso em conhecimento e admirável na guerra.

10Quanto ao que Aquior disse em teu conselho, ouvimos suas palavras, pois os homens de Betúlia pouparam-no, e ele contou tudo o que disse diante de ti.

11Não desprezes, senhor e chefe, a palavra dele, mas guarda-a em teu coração, porque é verdadeira: nosso povo não será castigado, nem a espada terá poder contra eles, se não pecarem contra o seu Deus.

12Mas agora, para que meu senhor não seja frustrado, a morte caiu sobre eles. O pecado tomou posse deles, e provocarão o seu Deus quando fizerem aquilo que não convém.

13Faltou-lhes alimento, a água desapareceu, e decidiram lançar mão de seus animais e consumir tudo o que Deus lhes proibiu comer por suas leis.

14Também resolveram gastar as primícias do trigo, o dízimo do vinho e do azeite, que haviam consagrado e reservado para os sacerdotes em Jerusalém, diante do nosso Deus.

15Nenhum do povo deve sequer tocar essas coisas com as mãos.

16Enviaram mensageiros a Jerusalém para obter permissão do conselho dos anciãos.

17Quando lhes for concedido e fizerem isso, serão entregues a ti para destruição no mesmo dia.

18Por isso, tua serva, sabendo de tudo, fugi da presença deles, e Deus me enviou para realizar contigo coisas que espantarão toda a terra ao ouvi-las.

19Tua serva é piedosa e serve ao Deus do céu noite e dia. Agora permanecerei contigo, meu senhor; sairei à noite para o vale e orarei a Deus.

20Ele me dirá quando tiverem cometido seus pecados.

21Então virei e te contarei; tu sairás com todo o teu exército, e nenhum deles resistirá a ti.

22Conduzir-te-ei pelo meio da Judeia até chegares diante de Jerusalém. Colocarei teu trono no meio dela, e tu os conduzirás como ovelhas sem pastor; nenhum cão moverá a língua contra ti.

23Estas coisas me foram ditas segundo a minha previsão, foram anunciadas a mim, e fui enviada para declarar-te.

24Suas palavras agradaram a Holofernes e a todos os seus servos; admiraram sua sabedoria e disseram:

25Não há mulher semelhante a esta, de um extremo ao outro da terra, pela beleza do rosto e pela inteligência das palavras.

26Holofernes disse-lhe: Deus fez bem em enviar-te diante do povo, para que a força fique em nossas mãos e a ruína caia sobre os que desprezaram meu senhor.

27Tu és bela na aparência e boa nas palavras. Se fizeres como disseste, teu Deus será meu Deus, e habitarás na casa do rei Nabucodonosor; serás famosa em toda a terra.

12Capítulo 12

1Ordenou que a levassem ao lugar onde estavam seus tesouros, que lhe servissem da sua própria mesa e que bebesse do seu vinho.

2Judite disse: Não comerei dessas coisas, para que não haja em mim tropeço; mas comer-se-á do que trouxe comigo.

3Holofernes perguntou: Se acabar o que trouxeste, de onde conseguiremos alimento semelhante para te dar? Não há ninguém de tua nação conosco.

4Judite respondeu: Pela tua vida, meu senhor, tua serva não acabará o que tem antes que o Senhor realize pela minha mão o que determinou.

5Os servos de Holofernes a levaram para a tenda; ela dormiu até a meia-noite e se levantou perto da vigília da manhã.

6Mandou dizer a Holofernes: Ordene agora meu senhor que permitam à tua serva sair para a oração.

7Holofernes ordenou aos guardas que não a impedissem. Ela permaneceu no acampamento três dias; saía de noite ao vale de Betúlia, lavava-se na fonte de água e voltava pura ao acampamento.

8Quando subia, orava ao Senhor Deus de Israel, pedindo que dirigisse seu caminho para levantar seu povo.

9Voltava purificada e permanecia na tenda até tomar alimento ao entardecer.

10No quarto dia, Holofernes fez um banquete somente para seus servos e não convidou nenhum dos oficiais.

11Disse a Bagoas, o eunuco que administrava todos os seus bens: Vai e convence aquela mulher hebreia que está contigo a vir comer e beber conosco.

12Seria vergonha para nós deixar ir tal mulher sem termos convivido com ela; se não a persuadirmos, ela zombará de nós.

13Bagoas saiu da presença de Holofernes, entrou onde Judite estava e disse: Não tema esta bela jovem vir ao meu senhor, ser honrada diante dele, beber vinho com alegria e tornar-se hoje como uma das filhas dos assírios que servem na casa de Nabucodonosor.

14Judite respondeu: Quem sou eu para contradizer meu senhor? Tudo o que for agradável aos seus olhos farei prontamente, e isso será minha alegria até o dia da minha morte.

15Ela se levantou, vestiu-se com suas roupas e todos os adornos de mulher. Sua serva foi adiante e estendeu no chão, diante de Holofernes, as peles que Bagoas lhe dera para usar quando comesse.

16Judite entrou e reclinou-se; o coração de Holofernes ficou arrebatado por ela, seu espírito se agitou, e desejou muito estar com ela, pois desde o dia em que a vira aguardava oportunidade de seduzi-la.

17Holofernes disse: Bebe agora e alegra-te conosco.

18Judite respondeu: Beberei, meu senhor, pois minha vida foi engrandecida hoje mais do que em todos os dias desde que nasci.

19Tomou, comeu e bebeu diante dele do que sua serva preparara.

20Holofernes alegrou-se com ela e bebeu vinho em grande quantidade, mais do que jamais bebera em um só dia desde que nasceu.

13Capítulo 13

1Quando ficou tarde, seus servos se apressaram em sair. Bagoas fechou a tenda por fora, depois de afastar os presentes da face do seu senhor. Todos foram para os seus leitos, pois estavam cansados por causa do longo banquete.

2Judite ficou sozinha na tenda, e Holofernes estava lançado sobre o leito, dominado pelo vinho.

3Judite disse à sua serva que ficasse fora do quarto e esperasse sua saída, como nos outros dias, pois ela disse que sairia para a oração. Também falara isso a Bagoas.

4Todos se retiraram de sua presença; ninguém, pequeno ou grande, ficou no quarto. Judite, em pé junto ao leito, disse em seu coração: Senhor Deus de toda força, olha nesta hora para as obras de minhas mãos, para exaltação de Jerusalém.

5Agora é o tempo de socorrer tua herança e cumprir meu propósito para esmagar os inimigos que se levantaram contra nós.

6Aproximou-se da coluna do leito que ficava junto à cabeça de Holofernes e tomou dali a sua espada.

7Chegou-se ao leito, segurou os cabelos de sua cabeça e disse: Fortalece-me neste dia, Senhor Deus de Israel.

8Feriu-lhe o pescoço duas vezes com toda a sua força e separou-lhe a cabeça do corpo.

9Fez rolar o corpo para fora do leito e arrancou o cortinado das colunas.

10Pouco depois saiu e entregou à sua serva a cabeça de Holofernes.

11A serva a colocou na bolsa de alimentos, e as duas saíram juntas, como costumavam fazer para a oração. Passaram pelo acampamento, rodearam o vale, subiram a montanha de Betúlia e chegaram às portas da cidade.

12Judite gritou de longe aos guardas das portas: Abri, abri a porta! Deus, o nosso Deus, está conosco para ainda mostrar seu poder em Israel e sua força contra os inimigos, como fez hoje.

13Quando os homens da cidade ouviram sua voz, desceram depressa à porta e chamaram os anciãos.

14Todos correram, do menor ao maior, pois parecia impossível que ela tivesse voltado. Abriram a porta, receberam-nas, acenderam fogo para iluminar e cercaram-nas.

15Ela disse em alta voz: Louvai a Deus, louvai! Louvai a Deus, que não retirou sua misericórdia da casa de Israel, mas destruiu nossos inimigos por minha mão nesta noite.

16Tirou a cabeça da bolsa e mostrou-a, dizendo: Eis a cabeça de Holofernes, chefe do exército assírio; eis o cortinado sob o qual jazia embriagado. O Senhor o feriu pela mão de uma mulher.

17Pela vida do Senhor, que me guardou no caminho por onde fui: meu rosto o enganou para sua ruína, mas ele não cometeu pecado comigo, para minha contaminação ou vergonha.

18Todo o povo ficou grandemente admirado, inclinou-se e adorou a Deus, dizendo em uma só voz: Bendito és tu, nosso Deus, que hoje aniquilaste os inimigos do teu povo.

19Ozias disse a ela: Bendita és tu, filha, pelo Deus Altíssimo, mais do que todas as mulheres sobre a terra; bendito seja o Senhor Deus, criador dos céus e da terra, que te conduziu para ferir a cabeça do chefe dos nossos inimigos.

20A tua esperança jamais se apagará do coração dos homens que se lembram da força de Deus.

21Que Deus faça essas coisas para ti em louvor eterno e te visite com bens, porque não poupaste tua vida na humilhação do nosso povo, mas impediste nossa ruína, andando retamente diante do nosso Deus.

22Todo o povo disse: Assim seja, assim seja.

23Aquior, vendo tudo o que o Deus de Israel fizera, creu firmemente em Deus, foi circuncidado e unido à casa de Israel até este dia.

24Ao amanhecer, penduraram a cabeça de Holofernes no muro. Cada homem tomou suas armas, e saíram em grupos para as subidas da montanha.

25Quando os assírios os viram, mandaram avisar seus chefes, que foram aos comandantes, tribunos e a todos os seus oficiais.

26Chegaram à tenda de Holofernes e disseram ao administrador de todos os seus bens: Desperta agora o nosso senhor, porque os escravos ousaram descer contra nós para a batalha, para serem destruídos por completo.

27Bagoas entrou, bateu à cortina da tenda, supondo que Holofernes dormia com Judite.

28Como ninguém respondeu, abriu e entrou no quarto; encontrou-o lançado morto no chão, com a cabeça removida.

29Clamou com grande voz, chorando, gemendo e gritando; rasgou suas roupas.

30Entrou na tenda onde Judite estivera e não a encontrou. Então saiu ao povo e gritou:

31Os escravos agiram traiçoeiramente! Uma só mulher dos hebreus trouxe vergonha à casa do rei Nabucodonosor! Holofernes jaz no chão, sem cabeça!

14Capítulo 14

1Judite disse aos homens: Ouvi-me, irmãos. Tomai esta cabeça e pendurai-a no alto da muralha.

2Quando a manhã aparecer e o sol nascer sobre a terra, cada um tome suas armas, e todo homem valente saia da cidade; ponde um chefe sobre eles, como se descêsseis à planície contra a guarda dos assírios, mas não desçais.

3Eles tomarão suas armas, irão ao acampamento e despertarão os chefes do exército assírio. Estes correrão à tenda de Holofernes e não o acharão. Então o terror cairá sobre eles, e fugirão diante de vós.

4Vós e todos os habitantes do território de Israel os perseguireis e os derrubareis pelos caminhos.

5Antes disso, chamai-me Aquior, o amonita, para que veja e reconheça aquele que desprezou a casa de Israel e o enviou a nós como entregue à morte.

6Chamaram Aquior da casa de Ozias. Quando ele veio e viu a cabeça de Holofernes na mão de um homem, no meio da assembleia do povo, caiu com o rosto em terra e desfaleceu.

7Levantaram-no, e ele caiu aos pés de Judite, prostrou-se diante dela e disse: Bendita és tu em todas as tendas de Judá e entre todos os povos; os que ouvirem teu nome ficarão perturbados.

8Agora conta-me tudo o que fizeste nestes dias.

9Judite contou-lhe, no meio do povo, tudo o que fizera desde o dia em que saiu até a hora em que lhes falava.

10Quando terminou, o povo gritou com grande voz e fez ressoar a cidade com júbilo.

11Aquior, vendo tudo o que o Deus de Israel fizera, creu muito em Deus, circuncidou a carne do seu prepúcio e foi acrescentado à casa de Israel até este dia.

12Quando amanheceu, penduraram a cabeça de Holofernes na muralha. Cada homem tomou suas armas, e saíram em grupos para as passagens da montanha.

13Quando os assírios os viram, enviaram mensageiros aos seus chefes, e estes foram aos generais, comandantes de milhares e todos os oficiais.

14Eles foram à tenda de Holofernes e disseram ao mordomo: Desperta o nosso senhor, pois os escravos se atreveram a descer contra nós para a batalha.

15Bagoas entrou e bateu à entrada da tenda, pois pensava que ele dormia com Judite.

16Como ninguém respondeu, abriu, entrou no quarto e o encontrou lançado morto no estrado, sem a cabeça.

17Clamou com grande voz, com choro, gemido e grande grito, e rasgou suas roupas.

18Entrou na tenda onde Judite ficara e não a achou; então saiu correndo ao povo e disse:

19Os escravos nos enganaram. Uma só mulher hebreia trouxe vergonha à casa do rei Nabucodonosor. Eis que Holofernes está no chão, e sua cabeça não está nele.

20Quando os chefes do exército assírio ouviram estas palavras, rasgaram as túnicas, e sua alma se perturbou muito; houve clamor e grito imenso no meio do acampamento.

15Capítulo 15

1Quando os que estavam nas tendas ouviram, ficaram atônitos com o que acontecera.

2Medo e tremor caíram sobre eles, e ninguém permaneceu diante do seu próximo; todos se lançaram à fuga por todos os caminhos da planície e da montanha.

3Os que acampavam nos montes ao redor de Betúlia também fugiram. Então todos os guerreiros de Israel se lançaram contra eles.

4Ozias enviou mensageiros a Betomestaim, Bebai, Chobai, Cola e por todos os limites de Israel, para anunciar o que acontecera e chamar todos à perseguição dos inimigos até exterminá-los.

5Quando os filhos de Israel ouviram, todos caíram sobre eles com um só ânimo e os perseguiram até Choba.

6Também os que vinham de Jerusalém e de toda a montanha chegaram, pois lhes fora contado o que acontecera no acampamento dos inimigos; e os de Galaad e Galileia os cercaram com grande golpe até além de Damasco e seus limites.

7Os restantes habitantes de Betúlia avançaram contra o acampamento assírio, saquearam-no e enriqueceram muito.

8Os filhos de Israel que voltaram da matança tomaram o que restava; as aldeias e cidades da montanha e da planície obtiveram muitos despojos, pois havia grande quantidade.

9O sumo sacerdote Joaquim e o conselho dos anciãos dos filhos de Israel que estavam em Jerusalém vieram ver os bens que o Senhor fizera a Israel, contemplar Judite e saudá-la.

10Quando chegaram a ela, bendisseram-na todos juntos e disseram: Tu és a exaltação de Jerusalém, a grande glória de Israel, o grande orgulho da nossa raça.

11Fizeste tudo isto com tua mão; fizeste bem a Israel, e Deus se agradou disso. Bendita sejas pelo Senhor Todo-Poderoso para sempre.

12Todo o povo respondeu: Assim seja.

13O povo saqueou o acampamento por trinta dias. Deram a Judite a tenda de Holofernes, toda a sua prata, seus leitos, vasos e todos os seus móveis; ela tomou tudo, colocou sobre sua mula, preparou seus carros e amontoou ali os bens.

14Todas as mulheres de Israel correram para vê-la, bendisseram-na e fizeram dança em sua honra; ela tomou ramos nas mãos e deu-os às mulheres que estavam com ela.

15Coroaram-se com ramos de oliveira, ela e as companheiras; e Judite ia à frente de todo o povo na dança, conduzindo todas as mulheres.

16Todos os homens de Israel a seguiam armados, com coroas e cânticos nos lábios.

16Capítulo 16

1Judite entoou este cântico em todo Israel, e todo o povo cantou com ela este louvor.

2Disse Judite: Começai ao meu Deus com tamborins, cantai ao meu Senhor com címbalos; elevai-lhe salmo e louvor, exaltai e invocai o seu nome.

3Porque o Senhor é Deus que despedaça guerras; pois nos acampamentos, no meio do povo, ele me livrou das mãos dos que me perseguiam.

4Veio Assur dos montes do norte, veio com multidão de sua força; sua multidão obstruía os vales, e sua cavalaria cobria as colinas.

5Disse que queimaria meus territórios, mataria meus jovens à espada, lançaria meus pequeninos ao chão, faria meus meninos presa e minhas virgens despojo.

6Mas o Senhor Todo-Poderoso os feriu pela mão de uma mulher.

7O seu poderoso não caiu pelas mãos de jovens, nem filhos de titãs o feriram, nem gigantes elevados o atacaram; Judite, filha de Merari, enfraqueceu-o com a beleza do seu rosto.

8Ela despiu as roupas de viúva para levantar os abatidos de Israel; ungiu o rosto com perfume,

9prendeu os cabelos com tiara e vestiu roupa de linho para enganá-lo.

10Sua sandália arrebatou-lhe os olhos, sua beleza aprisionou-lhe a alma, e a espada atravessou-lhe o pescoço.

11Os persas tremeram diante de sua audácia, e os medos foram perturbados por sua coragem.

12Então os meus humildes gritaram, e eles tiveram medo; os meus fracos clamaram, e eles se encheram de pavor; levantaram a voz, e eles fugiram.

13Filhos de jovens mulheres os traspassaram, feriram-nos como fugitivos e pereceram na batalha do meu Senhor.

14Cantarei ao meu Deus um cântico novo. Senhor, tu és grande e glorioso, admirável em força, invencível.

15Sirva-te toda a tua criação, pois disseste, e ela foi feita; enviaste teu espírito, e foram formadas; não há quem resista à tua voz.

16Montanhas e mares serão abalados desde seus fundamentos; rochedos se derreterão como cera diante da tua face; mas para os que te temem, tu és misericordioso.

17Pequeno é todo sacrifício como cheiro agradável, e toda gordura é quase nada para o teu holocausto; mas quem teme o Senhor é grande para sempre.

18Ai das nações que se levantam contra a minha raça! O Senhor Todo-Poderoso se vingará delas no dia do julgamento: dará fogo e vermes às suas carnes, e chorarão de dor para sempre.

19Quando chegaram a Jerusalém, adoraram a Deus. Depois que o povo se purificou, ofereceram holocaustos, ofertas voluntárias e dons.

20Judite dedicou todos os objetos de Holofernes que o povo lhe dera, e o cortinado que ela tirara do quarto dele, como oferta ao Senhor.

21O povo permaneceu em Jerusalém diante do santuário por três meses, e Judite ficou com eles.

22Depois disso, cada um voltou para sua herança. Judite voltou a Betúlia e permaneceu em sua propriedade; foi honrada em seu tempo por toda a terra.

23Muitos a desejaram, mas nenhum homem a conheceu todos os dias de sua vida, desde que Manassés, seu marido, morreu e foi recolhido ao seu povo.

24Ela chegou a grande velhice na casa de seu marido, vivendo cento e cinco anos; libertou sua serva. Morreu em Betúlia, e sepultaram-na na caverna de Manassés, seu marido.

25A casa de Israel lamentou por ela durante sete dias. Antes de morrer, distribuiu seus bens a todos os parentes mais próximos de Manassés, seu marido, e aos seus próprios parentes.

26Ninguém mais aterrorizou os filhos de Israel nos dias de Judite, nem por muito tempo depois de sua morte.