Pais Apostólicos
Epístola de Barnabé
Texto cristão antigo atribuído tradicionalmente a Barnabé
Saudação
1Saúdo-vos, filhos e filhas, em paz, no nome do Senhor que nos amou. Alegro-me muito por causa da graça que recebestes, e dou graças a Deus porque ele plantou em vós um dom espiritual digno de admiração.
2Por isso desejei escrever-vos, não como mestre acima de vós, mas como alguém que vos ama e participa convosco da mesma esperança. O que recebi, reparti convosco, para que a vossa fé seja fortalecida e o vosso conhecimento se torne completo diante de Deus.
1A alegria pela fé dos leitores
1Tendo conhecido a grandeza de vossa fé e a abundância de conhecimento que Deus vos concedeu, alegrei-me em vossas almas felizes e nobres. Vejo que recebestes a graça enxertada em vós com disposição digna do Senhor.
2Por isso, mais do que falar de mim mesmo, procurei reunir aquilo que conduz à purificação do coração. Desejo que, além da fé, possuais conhecimento, esperança e amor, pois estas coisas permanecem diante de Deus.
3O Senhor nos concedeu compreender algo dos tempos passados, dos presentes e dos que hão de vir. Por isso, se caminharmos com temor e simplicidade, seremos achados dignos do conhecimento que ele dá aos que o amam.
2O sacrifício que Deus deseja
1Consideremos, portanto, que o Senhor não se agrada de ofertas feitas sem justiça. Ele mesmo declarou pelos profetas que não necessita de sacrifícios vazios, holocaustos ou sangue de animais quando o coração permanece distante dele.
2O sacrifício que Deus aceita é um coração quebrantado, um espírito humilde, a justiça praticada com sinceridade, a misericórdia oferecida ao próximo e a confissão de seu nome com vida reta.
3Assim, aprendemos que a nova lei de nosso Senhor Jesus Cristo não impõe um jugo de oferendas exteriores, mas chama o povo de Deus a oferecer a si mesmo em simplicidade, amor e reverência.
3O jejum verdadeiro
1Também acerca do jejum, o Senhor mostrou que não deseja apenas a abstinência de comida, mas a conversão da vida. O jejum que ele escolhe é romper as correntes da injustiça, libertar os oprimidos, repartir o pão com o faminto e acolher o pobre sem abrigo.
2Se alguém inclina a cabeça por um dia, mas mantém violência, orgulho e dureza no coração, esse jejum não sobe até Deus. Mas quem se afasta do mal, socorre o necessitado e fala com verdade, este jejum resplandece diante do Senhor.
3Portanto, não sejamos religiosos apenas na aparência. O culto que agrada a Deus é a vida inteira ordenada pela misericórdia.
4Vigiar nos últimos tempos
1Convém-nos vigiar com diligência, pois os dias são maus e a prova se aproxima. Todo o tempo anterior de nossa fé não nos aproveitará se agora, neste tempo difícil, nos entregarmos às obras da vaidade e da injustiça.
2Fujamos, pois, das obras do caminho mau, para que o adversário não encontre entrada em nós. Não vivamos isolados como se já fôssemos plenamente justificados; antes, reunamo-nos, examinando juntos aquilo que convém à salvação comum.
3Está escrito: Ai dos que são sábios aos próprios olhos. Sejamos espirituais; tornemo-nos templo perfeito para Deus. Meditemos no temor do Senhor e guardemos seus mandamentos, para que nos alegremos em seus juízos.
4Cada um receberá segundo suas obras. Se é justo, sua justiça irá diante dele; se é mau, a recompensa de sua maldade o aguardará. Portanto, não adormeçamos em nossos pecados, pois muitos são chamados, mas poucos escolhidos.
5O sofrimento de Cristo e a nova aliança
1O Senhor entregou sua carne à corrupção para que fôssemos santificados pelo perdão dos pecados, mediante o sangue derramado. As Escrituras falaram dele quando disseram que foi ferido por nossas transgressões e conduzido como cordeiro ao matadouro.
2Devemos, portanto, agradecer profundamente ao Senhor, pois ele nos revelou as coisas passadas, deu-nos sabedoria sobre as presentes e não nos deixou sem entendimento a respeito das futuras.
3Se ele, Senhor de todo o mundo, aceitou sofrer por nossa alma, compreendamos a grandeza de seu amor. Os profetas, recebendo dele graça, anunciaram seu sofrimento; e ele suportou tudo para destruir a morte e manifestar a ressurreição.
6Cristo prometido e a nova criação
1Os profetas falaram dele como pedra posta em Sião, preciosa e escolhida. Não se trata de confiar numa pedra sem vida, mas naquele que foi manifestado em carne e em quem repousa a nossa esperança.
2Deus fez o homem no princípio e disse ao Filho: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Agora, nos últimos dias, ele realiza em nós uma segunda criação, renovando-nos pelo perdão e dando-nos alma de filhos.
3Fomos formados novamente pelo Espírito, para que habitemos numa terra boa, isto é, numa vida frutífera diante de Deus. O leite e o mel prometidos apontam para a simplicidade da fé e para a doçura da palavra que alimenta os recém-nascidos em Cristo.
4Assim, aquele que nos criou no princípio nos recria agora. Ele nos chama não para a velha corrupção, mas para sermos povo santo, casa espiritual e herança preparada para o Senhor.
7Figuras da paixão
1Consideremos também as figuras que apontam para a paixão do Senhor. Quando se ofereciam animais e se realizavam ritos antigos, havia neles sinais que, compreendidos espiritualmente, anunciavam o sofrimento de Cristo e a purificação do povo.
2O bode enviado para fora do acampamento, rejeitado e carregando sinais de escárnio, prefigurava aquele que seria desprezado, ferido e entregue fora da cidade. Os que o vissem, um dia reconheceriam nele o Salvador que suportou opróbrio por todos.
3Do mesmo modo, a novilha, o escarlate, a madeira e o hissopo eram sinais de purificação. O autor vê nessas coisas figuras do madeiro, do sangue e da fé pela qual somos limpos.
4Guardemos, porém, o sentido principal: a salvação não vem da cerimônia exterior em si mesma, mas de Cristo, que cumpriu aquilo que as figuras apenas anunciavam.
8A purificação e o sinal do madeiro
1A antiga purificação com cinzas e água apontava, segundo esta interpretação, para a obra de Cristo. O povo era aspergido para recordar que a impureza não podia ser vencida pela força humana, mas pela misericórdia de Deus.
2O autor vê no madeiro usado no rito um sinal da cruz; na lã escarlate, uma lembrança do sangue; no hissopo, a humildade pela qual somos limpos. Tais imagens conduzem o leitor a contemplar o Senhor que sofreu.
3Portanto, recebamos a purificação não como rito vazio, mas como chamado à fé, ao arrependimento e à vida nova. Quem foi limpo por Deus deve viver como quem pertence a ele.
9A circuncisão entendida espiritualmente
1A circuncisão, diz o texto, foi entendida de modo exterior por muitos, mas Deus sempre buscou a circuncisão do coração. O ouvido e o coração precisam ser abertos para escutar e obedecer ao Senhor.
2Abraão recebeu sinal, mas a justiça que agradou a Deus foi sua fé obediente. O autor interpreta também o número dos servos de Abraão como figura misteriosa do nome de Jesus e do sinal da cruz, segundo o modo alegórico de seu tempo.
3A verdadeira marca do povo de Deus, portanto, não é vanglória na carne, mas fé viva, obediência, amor e coração transformado. Quem pertence a Deus deve ser reconhecido por suas obras de justiça.
10Os alimentos e a conduta moral
1Quanto aos animais proibidos na Lei, o autor entende que Moisés falou em sentido espiritual. Não se trataria apenas de comida, mas de advertência contra certos modos de vida.
2Não comerás porco, isto é, não te associarás aos que se lembram do Senhor somente quando estão necessitados, mas o esquecem quando vivem em abundância. Não comerás aves de rapina, isto é, não viverás de violência, saque e exploração.
3Não te tornarás semelhante aos peixes que vivem nas profundezas, longe da luz, nem aos animais que se movem de modo impuro. Antes, escolherás companhias e hábitos que conduzam à justiça.
4Assim, a lição moral é esta: o povo de Deus deve afastar-se da voracidade, da hipocrisia, da impureza, da opressão e de toda forma de vida que obscurece a alma.
11A água, a cruz e a esperança
1As Escrituras também anunciaram a água e a cruz. A água aponta para a vida recebida de Deus, para o perdão e para o renascimento. A cruz aponta para aquele por meio de quem essa vida nos foi concedida.
2Bem-aventurados os que, confiando na cruz, descem às águas e delas sobem com esperança. O coração antes seco torna-se árvore plantada junto às correntes, dando fruto em seu tempo.
3O Senhor prometeu que rios de água viva correriam para os que nele creem. Por isso, o batismo e a fé não devem ser separados de uma vida frutífera, pois a árvore boa é reconhecida por seus frutos.
12O sinal da cruz nas Escrituras
1O autor encontra sinais da cruz em diversas passagens. Quando Moisés estendeu as mãos e Israel prevaleceu, ele vê ali uma figura do madeiro e da vitória concedida por Deus.
2Também a serpente levantada no deserto é interpretada como anúncio daquele que seria levantado para que os feridos olhassem com fé e vivessem. Não era o metal que salvava, mas Deus, que ensinava o povo a confiar no sinal que apontava para Cristo.
3Assim, a cruz é apresentada como centro da esperança. Aquilo que parecia vergonha tornou-se vitória; aquilo que parecia derrota tornou-se remédio para os que estavam feridos pelo pecado.
13A herança pertence ao povo da promessa
1O texto argumenta que a herança prometida pertence ao povo renovado por Deus. Recorre às figuras de Isaac, Jacó, Efraim e Manassés para mostrar que, muitas vezes, o menor é colocado antes do maior e o inesperado recebe a bênção.
2Essa leitura quer demonstrar que a promessa não se limita à descendência carnal, mas alcança os que creem. O povo de Deus é definido pela fé, pela obediência e pela graça recebida em Cristo.
3Portanto, ninguém se glorie em privilégios exteriores. A bênção pertence aos que acolhem o chamado do Senhor e caminham segundo sua justiça.
14A aliança recebida no coração
1Moisés recebeu as tábuas da aliança, mas, quando o povo se voltou aos ídolos, as tábuas foram quebradas. O autor entende esse gesto como sinal de que a antiga aliança, violada pela desobediência, não poderia permanecer como posse de um povo infiel.
2A aliança do Amado, porém, é selada no coração dos que creem. Não se escreve apenas em pedra, mas na vida interior transformada pela esperança em Jesus.
3Por isso, não digamos com presunção que a aliança é nossa por costume ou herança. Ela pertence aos que a recebem com fé, arrependimento e obediência.
15O sábado e o oitavo dia
1Também acerca do sábado, o autor ensina que Deus fala de um repouso futuro. Os seis dias da criação são vistos como figura do tempo do mundo; o sétimo aponta para o descanso santo que virá quando tudo for renovado.
2Não basta guardar um dia exteriormente se o coração permanece impuro. O verdadeiro repouso requer mãos limpas, consciência purificada e justiça diante de Deus.
3Por isso os cristãos celebram também o oitavo dia, dia em que Jesus ressuscitou dentre os mortos. Ele é sinal de nova criação, começo de esperança e alegria para o povo renovado.
16O templo espiritual
1O autor recorda que o templo feito por mãos humanas foi destruído e adverte que Deus não habita em casas como se dependesse delas. O verdadeiro templo deve ser compreendido espiritualmente.
2Antes de crermos, nosso coração era morada de corrupção, cheio de idolatria e vaidade. Mas Deus, habitando em nós pela palavra da fé, faz de nosso interior uma casa para si.
3Assim, somos templo do Senhor quando sua palavra habita em nós, quando confessamos seu nome, quando vivemos em temor e quando abandonamos as obras que profanam a alma.
4Edifiquemos, portanto, esse templo com justiça, esperança, amor e perseverança, para que Deus seja glorificado em nossa vida.
17Transição para a instrução moral
1Até aqui, diz o autor, falou-se tanto quanto possível sobre as figuras e o conhecimento recebido. Ainda que muito pudesse ser acrescentado, basta ao leitor atento compreender o caminho indicado.
2Agora resta tratar de outra forma de conhecimento: a diferença entre dois caminhos. Um conduz à luz; o outro, às trevas. Cada pessoa deve examinar por qual deles anda.
18Os dois caminhos
1Há dois caminhos de ensino e autoridade: o caminho da luz e o caminho das trevas. A diferença entre os dois é grande. Sobre um estão os mensageiros de Deus; sobre o outro, os mensageiros do adversário.
2O caminho da luz pertence ao Senhor desde a eternidade; o caminho das trevas conduz à morte. Quem deseja chegar ao lugar determinado deve cuidar de suas obras, pois a vida se manifesta na obediência.
19O caminho da luz
1O caminho da luz é este: amarás aquele que te criou, temerás aquele que te formou, glorificarás aquele que te redimiu da morte. Serás simples de coração e rico em espírito, não te ajuntarás aos que caminham para a morte.
2Não te exaltarás; serás manso em tudo. Não tomarás glória para ti. Não formarás mau conselho contra o próximo. Não permitirás ousadia insolente em tua alma.
3Amarás o próximo mais do que a tua própria vida. Não matarás a criança no ventre, nem destruirás a que nasceu. Não retirarás a mão de teu filho ou de tua filha, mas desde a juventude os ensinarás no temor de Deus.
4Não cobiçarás os bens do próximo. Não serás avarento. Não te unirás aos soberbos, mas caminharás com os humildes e justos. Receberás como bem as coisas que te acontecem, sabendo que nada ocorre sem Deus.
5Não serás de dupla mente nem de dupla língua, pois a língua dupla é armadilha de morte. Submeter-te-ás aos que te instruem na palavra. Lembrar-te-ás, dia e noite, do juízo futuro.
6Compartilharás tudo com teu próximo e não dirás que algo é exclusivamente teu, pois se participais juntos das coisas incorruptíveis, quanto mais das corruptíveis. Não serás precipitado em falar; tua boca será guardada para a verdade.
7Confessarás teus pecados. Não irás à oração com consciência má. Este é o caminho da luz.
20O caminho das trevas
1O caminho das trevas é tortuoso e cheio de maldição. Nele se encontram idolatria, arrogância, poder opressor, hipocrisia, coração duplo, adultério, homicídio, roubo, soberba, transgressão, fraude, malícia, obstinação, veneno, magia, avareza e falta de temor de Deus.
2Os que andam por esse caminho perseguem os bons, odeiam a verdade, amam a mentira, não reconhecem a recompensa da justiça, não se apegam ao bem nem ao juízo justo. Não cuidam da viúva nem do órfão; vigiam para o mal, não para o temor de Deus.
3Deles estão longe mansidão e paciência. Amam vaidades, seguem recompensas injustas, não têm compaixão do pobre, não sofrem com o aflito, são prontos para difamar e não conhecem aquele que os criou.
4São destruidores da obra de Deus, desviam o necessitado, oprimem o aflito, defendem os ricos injustamente e julgam os pobres sem misericórdia. São pecadores em tudo.
21Exortação final
1Convém, portanto, que aquele que aprende os mandamentos do Senhor caminhe neles. Quem os pratica será glorificado no reino de Deus; quem escolhe o caminho contrário perecerá com suas obras.
2Por isso há ressurreição e retribuição. Se receberdes esta palavra com simplicidade e atenção, tereis alegria. Guardai-vos, porém, para que o maligno não encontre espaço entre vós e vos afaste da vida que esperais.
3Sede ensináveis, buscai o que é bom, praticai a justiça e permanecei na paz. Enquanto ainda tendes oportunidade, não poupeis esforços em favor de vossa alma.
4Que o Senhor de todo o mundo vos dê sabedoria, entendimento, conhecimento de seus mandamentos e perseverança. Sede ensinados por Deus, buscai aquilo que ele requer de vós e vivei de modo que sejais encontrados no dia do juízo.
5Paz esteja convosco, filhos de amor e paz. O Senhor da glória e de toda graça esteja com o vosso espírito. Amém.