Pais Apostólicos
Pastor de Hermas
Terceiro livro: Semelhanças
Tradução própria do Papel Amassado · pt-BR
A cidade futura
1O Pastor disse: “Sabeis que vós, servos de Deus, habitais em terra estrangeira; vossa cidade está longe desta. Se conheceis a cidade em que deveis habitar, por que acumulais aqui campos, casas, edifícios caros e preparações inúteis?”
2“O senhor desta cidade poderá dizer: ‘Não quero que habites em minha cidade; parte daqui, porque não obedeces às minhas leis.’ Que farás, então, com os campos e casas que ajuntaste? Se, por causa deles, negares a lei de tua própria cidade, não serás recebido quando quiseres voltar.”
3“Vive, pois, como estrangeiro. Prepara apenas o necessário, e quando fores expulso desta cidade, parte com alegria para a tua. Em vez de campos, compra almas aflitas; visita viúvas e órfãos; reparte a riqueza que recebeste do Senhor. Esse gasto é santo e não traz tristeza, mas alegria.”
A videira e o olmo
1Caminhando no campo, observei uma videira e um olmo. O Pastor perguntou o que eu pensava deles. Respondi: “Combinam muito bem.” Ele disse: “Estas duas árvores são exemplo para os servos de Deus: para o pobre e para o rico.”
2“A videira dá fruto, mas, se fica no chão, produz pouco e fruto ruim. Apoiada no olmo, produz muito fruto. O olmo parece estéril, mas sustenta a videira e participa de sua fecundidade.”
3“Assim o rico é pobre diante do Senhor quando se ocupa apenas de suas riquezas; suas orações são pequenas. O pobre, porém, é rico em oração. Quando o rico socorre o pobre, e o pobre intercede pelo rico, ambos cumprem sua obra diante de Deus. O rico administra os bens recebidos do Senhor; o pobre oferece intercessão poderosa. Ambos se tornam parceiros na justiça.”
As árvores no inverno
1Ele me mostrou muitas árvores sem folhas, todas parecendo secas. Perguntou: “Vês estas árvores?” Eu disse: “Vejo que todas parecem iguais.” Ele respondeu: “Estas árvores são os habitantes deste mundo.”
2“Neste mundo, os justos e os pecadores não se distinguem plenamente; esta vida é inverno para os justos. Como no inverno as árvores sem folhas parecem iguais, assim neste mundo os justos e os injustos parecem semelhantes.”
As árvores no verão
1Depois mostrou-me árvores brotando e outras secas. Disse: “As que brotam são os justos que viverão no mundo futuro. O mundo futuro é verão para os justos e inverno para os pecadores.”
2“No verão, os frutos revelam quais árvores vivem e quais estão secas. Assim também, quando a misericórdia do Senhor resplandecer, serão manifestos os que serviram a Deus e os que se entregaram à injustiça.”
O verdadeiro jejum
1Enquanto jejuava sentado num monte, agradecendo a Deus por tudo que fizera comigo, o Pastor sentou-se ao meu lado e perguntou: “Por que vieste tão cedo?” Respondi: “Estou guardando uma estação de jejum.” Ele disse: “Que jejum é esse que guardais?”
2Respondi: “Jejuo como estou acostumado.” Ele disse: “Não sabeis jejuar para Deus. Esse jejum exterior, por si só, nada realiza. O verdadeiro jejum é guardar os mandamentos do Senhor: não fazer o mal, servir a Deus com coração puro, caminhar em seus preceitos e afastar todo desejo mau.”
Jejum e esmola
1“No dia em que jejuares, toma apenas pão e água; calcula o que gastarias com alimento e entrega essa quantia à viúva, ao órfão ou ao necessitado. Assim humilharás tua alma e aquele que receber se alegrará e orará por ti ao Senhor.”
2“Se jejuardes assim, vosso sacrifício será agradável a Deus. Esse jejum é bom quando praticado com os mandamentos do Senhor.”
O campo e o servo fiel
1Ele contou uma parábola: “Certo homem possuía campo, servos e vinhas. Ao viajar, confiou a vinha a um servo, ordenando-lhe que a cercasse. O servo não apenas cercou a vinha, mas arrancou as ervas daninhas. Quando o senhor voltou e viu que o servo fizera mais do que o ordenado, alegrou-se.”
2“Chamou então seu filho e seus amigos, e decidiu tornar o servo coerdeiro do filho, porque fora fiel. Assim também, quando guardais os mandamentos e ainda acrescentais obras de serviço e misericórdia, sois honrados diante do Senhor.”
O pastor do prazer
1Ele me mostrou um pastor vestido com luxo, cercado de muitas ovelhas. Algumas saltavam com prazer, outras estavam fracas e tristes. O Pastor disse: “Este é o anjo do prazer e do engano. Ele corrompe os servos de Deus, desviando-os da verdade e entregando-os a desejos maus.”
2“Os que se entregam a prazeres e não se arrependem morrem. Os que se desviaram por algum tempo, mas se arrependem, ainda podem viver, se abandonarem suas obras.”
Punição e retorno
1“Vês as ovelhas castigadas?” perguntou ele. “São aqueles que se entregaram ao prazer, mas depois se lembraram do Senhor. Recebem disciplina para que vivam. A disciplina parece amarga por um tempo, mas produz fruto de justiça.”
2“Os que persistem nos prazeres até o fim são entregues à morte. Os que suportam a disciplina e se arrependem serão purificados.”
O arrependimento precisa produzir fruto
1Depois de alguns dias, vi o Pastor castigando-me severamente por causa de minha casa. Fiquei abatido e perguntei por que eu sofria. Ele disse: “És corrigido para que tua casa seja purificada. Enquanto teus filhos e tua esposa forem corrigidos, tu também serás provado, porque foste descuidado com eles.”
2“A correção é útil se produz fruto. Não basta dizer: ‘Arrependo-me.’ É preciso praticar as obras do arrependimento: humildade, simplicidade, justiça, misericórdia e abandono das antigas maldades.”
O grande salgueiro e os ramos
1Ele me mostrou um grande salgueiro que cobria campos e montes. Sob sua sombra estavam todos os chamados pelo nome do Senhor. Um anjo glorioso cortava ramos do salgueiro e os entregava ao povo, cada um recebendo um ramo pequeno.
2Depois pediu que todos devolvessem os ramos. Alguns os devolveram verdes e vivos; outros, murchos; outros, meio secos; outros, rachados; outros, secos e comidos por insetos; alguns, porém, haviam brotado e produzido fruto. O anjo examinou todos e separou cada grupo.”
O sentido dos ramos
1Perguntei ao Pastor o que significava o salgueiro. Ele respondeu: “É a lei de Deus, dada ao mundo inteiro; e o grande anjo é Miguel, que governa este povo. Os ramos são a lei entregue a cada um.”
2“Os que devolveram ramos verdes são os que guardaram a lei em pureza. Os ramos com brotos e frutos pertencem aos que sofreram pelo nome do Senhor e perseveraram. Os ramos murchos são os que ouviram a lei, mas se deixaram sufocar por negócios e riquezas.”
Diversos estados de arrependimento
1“Os ramos meio secos são os duvidosos; os rachados são os que guardam rancores e divisões; os secos e comidos são os que se entregaram por completo à maldade. Mesmo entre eles, alguns ainda podem arrepender-se se agirem depressa, enquanto a árvore ainda está viva.”
2“Os que se arrependerem receberão lugar na torre, mas cada um conforme suas obras. Não todos no mesmo grau, pois o arrependimento de cada um tem medida diversa. Bem-aventurados os que guardaram o ramo verde desde o princípio.”
O monte e a rocha antiga
1Depois de eu ter escrito os mandamentos e as semelhanças, o Pastor veio e me levou para a Arcádia, a um monte em forma de seio. Sentamo-nos, e ele me mostrou uma grande planície cercada por doze montes. No meio da planície havia uma rocha antiga, alta e branca, maior que os montes, com uma porta recentemente talhada nela.
2A porta brilhava mais que o sol. Ao redor dela estavam doze virgens. Vieram então seis homens altos e gloriosos, semelhantes aos que eu vira antes, e chamaram uma multidão de homens fortes. Ordenaram-lhes que edificassem uma torre sobre a rocha e acima da porta.”
A construção da torre pelas virgens
1As virgens, que estavam junto à porta, recebiam as pedras dos homens e as passavam para a construção. As pedras que vinham das profundezas eram colocadas diretamente, pois se ajustavam à rocha. Outras pedras eram trazidas dos montes; algumas serviam, outras eram rejeitadas.
2A torre se erguia sobre a rocha e sobre a porta. Perguntei ao Pastor: “Por que as pedras passam pelas mãos das virgens?” Ele respondeu: “Porque ninguém pode entrar no Reino de Deus se não receber o nome delas.”
A rocha, a porta e o Filho de Deus
1Perguntei: “Senhor, que são a rocha e a porta?” Ele disse: “A rocha e a porta são o Filho de Deus.” Perguntei: “Como podem ser uma só coisa?” Ele respondeu: “Porque ninguém entra no Reino de Deus senão pelo nome de seu Filho. A rocha é antiga, pois o Filho de Deus é anterior a toda criação; a porta é nova, pois apareceu nos últimos dias para que os que haveriam de ser salvos entrassem por ela.”
2“Vês que a torre é construída sobre a rocha e sobre a porta? Assim a Igreja é edificada sobre o Filho de Deus. As pedras que não entram pela porta não podem servir ao edifício.”
As doze virgens
1Perguntei sobre as virgens. Ele respondeu: “São espíritos santos. Ninguém pode ser encontrado no Reino de Deus se elas não o revestirem com sua veste. Seus nomes são: Fé, Continência, Poder, Paciência, Simplicidade, Inocência, Pureza, Alegria, Verdade, Entendimento, Concórdia e Amor.”
2“Quem leva o nome do Filho de Deus deve também levar os nomes dessas virgens. Se alguém recebe o nome, mas não recebe seus poderes, leva o nome em vão.”
As mulheres vestidas de preto
1Vi também mulheres vestidas de preto, com cabelos soltos e ombros descobertos. Perguntei quem eram. Ele disse: “São os espíritos maus: Incredulidade, Incontinência, Desobediência, Engano, Tristeza, Maldade, Luxúria, Ira, Falsidade, Loucura, Difamação e Ódio.”
2“Se alguém serve a estas mulheres, não pode entrar na torre. Ainda que tenha recebido o nome do Filho de Deus, se se entrega a elas, será lançado para longe da construção.”
Os doze montes
1Perguntei sobre os doze montes. Ele disse: “São doze povos que habitam todo o mundo. O Filho de Deus foi anunciado a eles pelos apóstolos.” Cada monte tinha aparência diferente: alguns eram negros, outros sem vegetação, outros cheios de espinhos, outros com ervas, outros com rachaduras, outros férteis e belos.
2“De cada monte vieram pedras para a torre. As diferenças dos montes mostram as diferenças dos que creram: uns foram fiéis e simples; outros duvidosos; outros ricos e sufocados; outros hipócritas; outros perseguidos; outros generosos; outros arrependidos.”
Os apóstolos e mestres
1Perguntei pelas pedras tiradas do fundo e colocadas na torre. Ele disse: “São os apóstolos e mestres que anunciaram o nome do Filho de Deus, caminharam em santidade e ensinaram com pureza. Alguns adormeceram, outros ainda vivem, mas todos concordam na mesma obra.”
2“As pedras que se ajustam perfeitamente são os que receberam o nome e guardaram as virtudes das virgens. Por isso suas juntas não aparecem; tornaram-se um só corpo na torre.”
Pedras rejeitadas e possibilidade de retorno
1As pedras rejeitadas não foram todas lançadas ao mesmo lugar. Algumas ficaram perto da torre, outras foram levadas para longe. Perguntei se ainda havia esperança para elas. Ele respondeu: “Para algumas, sim. As que estão perto podem ser talhadas e voltar, se se arrependerem. As que foram para longe dificilmente retornarão, pois se entregaram às mulheres negras.”
2“O arrependimento é possível enquanto a construção continua. Quando a torre estiver concluída, já não haverá lugar. Por isso é necessário arrepender-se agora, enquanto o Senhor concede tempo.”
Os que sofrem pelo nome
1Vi pedras resplandecentes, adornadas, e perguntei quem eram. Ele respondeu: “São os que sofreram por causa do nome do Filho de Deus. Alguns foram entregues à morte, outros suportaram prisões, tribulações e perdas, mas não negaram o nome. Por isso têm honra especial no edifício.”
2“Os que, em sofrimento, não murmuram contra o Senhor, mas permanecem simples e fiéis, tornam-se pedras preciosas na torre.”
Ricos, duvidosos e arrependidos
1“Os ricos que não se apegam às riquezas, mas as repartem com os necessitados, tornam-se úteis à torre. Mas os que se orgulham, se envolvem em muitos negócios e esquecem o Senhor, tornam-se redondos e não entram no edifício até serem cortados.”
2“Os duvidosos são como pedras rachadas. Se expulsarem a dúvida, serão curados. Os que guardam rancor precisam reconciliar-se. Os que caíram em prazeres precisam arrepender-se com obras, não só com palavras.”
A purificação das pedras
1Depois vi as pedras rejeitadas serem entregues às virgens para que as lavassem, talhassem e provassem. Algumas se tornaram belas e foram recolocadas na torre; outras se quebraram e foram lançadas fora definitivamente.
2O Pastor disse: “Vês a misericórdia do Senhor? Ele não rejeita imediatamente os que pecaram, mas dá lugar ao arrependimento. Contudo, quem despreza a correção endurece-se e perde a vida.”
Conclusão da torre
1Quando a torre se aproximava da conclusão, o Senhor da torre veio examiná-la. Tocou as pedras, provou-as e alegrou-se com as que estavam firmes. Ordenou que fossem substituídas as que não se ajustavam, para que a construção permanecesse perfeita.
2O Pastor disse: “O Senhor conhece os seus. Nada escondido permanece oculto diante dele. As pedras belas são os servos fiéis; as defeituosas são os que precisam de arrependimento. Feliz quem for encontrado firme quando o Senhor visitar sua torre.”
Exortação final da nona semelhança
1“Anuncia estas coisas”, disse ele, “a todos os que receberam o nome do Filho de Deus. Que se arrependam os que pecaram; que permaneçam firmes os justos; que os ricos se tornem servidores dos pobres; que os duvidosos se fortaleçam na fé; que os divididos busquem a paz.”
2“A torre ainda está sendo edificada. O tempo é curto, mas a misericórdia é grande. Quem se voltar ao Senhor de todo o coração encontrará lugar na construção.”
Entrega à família de Hermas
1Depois que terminei de escrever este livro, o anjo que me havia entregue ao Pastor veio à casa onde eu estava. Sentou-se no leito e o Pastor ficou à sua direita. Chamou-me e disse: “Entreguei-te a este Pastor para que fosses protegido por ele. Se guardares seus mandamentos, serás poderoso contra todo mal.”
2“Não apenas tu, mas também tua casa, se guardar estas palavras, viverá para Deus. Corrige tua família com mansidão e constância. Não guardes rancor, mas sê exemplo de arrependimento e simplicidade.”
Obras de misericórdia
1O Pastor disse: “Acima de tudo, pratica a esmola e a misericórdia. Socorre viúvas, órfãos, pobres e aflitos. Não retenhas o que recebeste do Senhor como se fosse teu. Quem dá em simplicidade terá alegria; quem acumula para si mesmo será pesado para a torre.”
2“Guarda a pureza, a verdade e a concórdia. Não permitas que a tristeza domine teu coração. Alegra-te no Senhor, porque a alegria justa fortalece o espírito.”
Última exortação
1“Estas coisas vos escrevi para que vos arrependais e vivais para Deus. O Senhor está perto dos que se convertem a ele. Quem guarda seus mandamentos receberá vida; quem os despreza terá culpa de si mesmo.”
2Depois disso, o Pastor partiu de mim; mas suas palavras permaneceram em meu coração. Dei graças ao Senhor por sua misericórdia, e procurei andar em simplicidade, temor, fé e verdade, para viver para Deus.