Deuterocanônicos

Bel e o Dragão

Tradução editorial do Papel Amassado · pt-BR

Fonte textual e critério editorial

O texto apresentado nesta página é uma tradução editorial em português brasileiro preparada pelo Papel Amassado a partir de fontes históricas de domínio público. A fonte textual de referência registrada para esta edição é King James Version Apocrypha — Bel and the Dragon, edição histórica em domínio público. Também foram consultadas edições e transcrições disponíveis em acervos digitais especializados.

Bel e o Dragão é uma narrativa preservada entre os acréscimos gregos ao livro de Daniel. O texto apresenta Daniel desmascarando a idolatria ligada ao deus Bel e enfrentando a figura do dragão, com forte ênfase na fidelidade ao Deus de Israel. Na tradição católica e em várias tradições ortodoxas, o texto integra os acréscimos deuterocanônicos de Daniel. Na maioria das tradições protestantes, é classificado como apócrifo, pois não pertence ao texto hebraico-aramaico tradicional de Daniel.

1Daniel e o ídolo Bel

1O rei Astíages foi reunido a seus pais, e Ciro, da Pérsia, recebeu o seu reino.

2Daniel convivia com o rei e era honrado acima de todos os seus amigos.

3Havia entre os babilônios um ídolo chamado Bel. Cada dia eram gastos com ele doze grandes medidas de farinha fina, quarenta ovelhas e seis vasos de vinho.

4O rei o adorava e ia diariamente prestar-lhe culto; Daniel, porém, adorava o seu Deus. Então o rei lhe perguntou: “Por que não adoras Bel?”

5Daniel respondeu: “Porque não adoro ídolos feitos por mãos humanas, mas o Deus vivo, que criou o céu e a terra e domina sobre toda carne”.

6O rei disse: “Não te parece que Bel é um deus vivo? Não vês quanto ele come e bebe todos os dias?”

7Daniel sorriu e disse: “Não te enganes, ó rei. Por dentro ele é barro, e por fora é bronze; nunca comeu nem bebeu coisa alguma”.

8O rei ficou irritado, chamou os sacerdotes de Bel e disse: “Se não me disserdes quem consome estas ofertas, morrereis”.

9“Mas, se provardes que Bel as consome, Daniel morrerá, porque falou contra Bel”. Daniel respondeu ao rei: “Faça-se conforme a tua palavra”.

10Os sacerdotes de Bel eram setenta, além de suas mulheres e filhos. O rei entrou com Daniel no templo de Bel.

11Os sacerdotes de Bel disseram: “Eis que sairemos. Tu, ó rei, põe os alimentos, prepara o vinho, fecha bem a porta e sela-a com o teu anel”.

12“Amanhã, quando entrares, se não achares que Bel consumiu tudo, morreremos; caso contrário, morrerá Daniel, que mentiu contra nós”.

13Eles pouco se importavam, pois haviam feito uma entrada secreta debaixo da mesa, por onde entravam continuamente e consumiam as ofertas.

14Depois que saíram, o rei colocou os alimentos diante de Bel. Daniel ordenou aos seus servos que trouxessem cinzas e as espalhassem por todo o templo, somente na presença do rei; então saíram, fecharam a porta, selaram-na com o anel do rei e partiram.

15Durante a noite, os sacerdotes vieram, como de costume, com suas mulheres e filhos, e comeram e beberam tudo.

16Bem cedo, pela manhã, o rei se levantou, e Daniel veio com ele.

17O rei perguntou: “Daniel, os selos estão intactos?” Ele respondeu: “Estão intactos, ó rei”.

18Ao abrir a porta, o rei olhou para a mesa e gritou em alta voz: “Grande és tu, Bel, e não há engano algum em ti!”

19Daniel sorriu, segurou o rei para que não entrasse e disse: “Olha agora o piso e observa bem de quem são estas pegadas”.

20O rei disse: “Vejo pegadas de homens, mulheres e crianças”. Então o rei se enfureceu.

21Prendeu os sacerdotes com suas mulheres e filhos, e eles lhe mostraram as portas secretas por onde entravam e consumiam o que estava sobre a mesa.

22Por isso o rei os matou e entregou Bel ao poder de Daniel, que destruiu o ídolo e o seu templo.

2Daniel e o dragão

23Naquele mesmo lugar havia um grande dragão, que os babilônios veneravam.

24O rei disse a Daniel: “Também dirás que este é de bronze? Eis que vive, come e bebe. Não podes negar que ele seja um deus vivo; portanto, adora-o”.

25Daniel respondeu ao rei: “Adorarei o Senhor, meu Deus, porque ele é o Deus vivo”.

26“Permite-me, ó rei, e matarei este dragão sem espada nem bastão”. O rei disse: “Permito”.

27Daniel tomou pez, gordura e pelos, cozinhou tudo junto, fez bolos e os lançou na boca do dragão; então o dragão se rompeu. Daniel disse: “Vede aquilo que adoráveis”.

28Quando os babilônios souberam disso, ficaram muito indignados e conspiraram contra o rei, dizendo: “O rei se tornou judeu: destruiu Bel, matou o dragão e fez morrer os sacerdotes”.

29Vieram ao rei e disseram: “Entrega-nos Daniel; caso contrário, destruiremos a ti e à tua casa”.

30Quando o rei viu que o pressionavam duramente, constrangido, entregou-lhes Daniel.

31Eles o lançaram na cova dos leões, onde permaneceu seis dias.

32Na cova havia sete leões. Diariamente lhes davam duas carcaças e duas ovelhas; mas naquele tempo nada lhes deram, para que devorassem Daniel.

33Estava então na Judeia o profeta Habacuque. Ele havia preparado uma comida e partido pães numa vasilha, e ia ao campo levá-los aos ceifeiros.

34O anjo do Senhor disse a Habacuque: “Leva a comida que tens para a Babilônia, a Daniel, que está na cova dos leões”.

35Habacuque respondeu: “Senhor, nunca vi a Babilônia, nem sei onde fica a cova”.

36Então o anjo do Senhor o tomou pelo alto da cabeça e, carregando-o pelos cabelos, levou-o com a força do seu espírito até a Babilônia, sobre a cova.

37Habacuque clamou: “Daniel, Daniel, toma a comida que Deus te enviou”.

38Daniel disse: “Tu te lembraste de mim, ó Deus, e não abandonaste os que te buscam e te amam”.

39Daniel se levantou e comeu. E o anjo do Senhor levou Habacuque de volta imediatamente ao seu lugar.

40No sétimo dia, o rei veio para lamentar Daniel. Chegando à cova, olhou, e Daniel estava sentado ali.

41Então o rei clamou em alta voz: “Grande és tu, Senhor, Deus de Daniel; não há outro além de ti”.

42Mandou tirar Daniel da cova e lançou nela aqueles que haviam procurado destruí-lo; e eles foram devorados num instante diante dele.