Deuterocanônicos

Susana

Tradução editorial do Papel Amassado · pt-BR

Fonte textual e critério editorial

O texto apresentado nesta página é uma tradução editorial em português brasileiro preparada pelo Papel Amassado a partir de fontes históricas de domínio público. A fonte textual de referência registrada para esta edição é King James Version Apocrypha — Susanna, edição histórica em domínio público. Também foram consultadas edições e transcrições disponíveis em acervos digitais especializados.

Susana é um texto deuterocanônico do Antigo Testamento. É recebido como canônico nas tradições católica e ortodoxa, e classificado como apócrifo na maioria das tradições protestantes.

1A história de Susana

1Morava na Babilônia um homem chamado Joaquim.

2Ele tomou por esposa Susana, filha de Helcias, mulher de grande beleza e temente ao Senhor.

3Seus pais eram justos e tinham instruído a filha segundo a Lei de Moisés.

4Joaquim era muito rico e possuía um belo jardim junto de sua casa. Os judeus costumavam reunir-se ali, pois ele era mais honrado que todos os outros.

5Naquele ano foram escolhidos como juízes dois anciãos do povo. A eles se aplicava o que o Senhor dissera: que a maldade saíra da Babilônia por meio de juízes antigos que pareciam governar o povo.

6Eles frequentavam a casa de Joaquim, e todos os que tinham causas a resolver vinham até eles.

7Quando o povo se retirava ao meio-dia, Susana entrava no jardim de seu marido para passear.

8Os dois anciãos a viam todos os dias entrando e caminhando, e a cobiça se acendeu dentro deles.

9Eles perverteram o próprio coração e desviaram os olhos, para não contemplarem o céu nem se lembrarem dos justos juízos de Deus.

10Ambos estavam feridos de paixão por ela, mas nenhum tinha coragem de revelar ao outro o seu desejo.

11Tinham vergonha de declarar a cobiça com que desejavam possuí-la.

12Mesmo assim, vigiavam-na cuidadosamente todos os dias, procurando ocasião de vê-la.

13Um disse ao outro: “Vamos para casa, pois é hora da refeição”. Saíram, então, e se separaram.

14Mas ambos voltaram ao mesmo lugar. Depois de se perguntarem a razão, confessaram um ao outro a paixão que os dominava e combinaram esperar o momento em que a encontrassem sozinha.

15Certo dia, enquanto vigiavam a ocasião, Susana entrou como de costume, acompanhada apenas de duas servas. Como fazia calor, desejou lavar-se no jardim.

16Não havia ali ninguém, exceto os dois anciãos, escondidos e à espreita.

17Susana disse às servas: “Trazei-me óleo e unguento, e fechai as portas do jardim, para que eu me lave”.

18Elas fizeram como lhes fora ordenado: fecharam as portas e saíram por entradas laterais para buscar o que Susana pedira, sem perceber os anciãos escondidos.

19Quando as servas saíram, os dois anciãos se levantaram e correram até Susana.

20Disseram: “As portas do jardim estão fechadas, ninguém nos vê, e estamos tomados de desejo por ti. Consente conosco e deita-te conosco”.

21“Se não o fizeres, testemunharemos contra ti, dizendo que havia um jovem contigo e que por isso mandaste as servas embora”.

22Susana suspirou e disse: “Estou cercada por todos os lados. Se eu fizer isso, será morte para mim; se eu não fizer, não escaparei de vossas mãos”.

23“Mas é melhor cair em vossas mãos sem fazer o mal do que pecar diante do Senhor”.

24Então Susana gritou em alta voz, e os dois anciãos também gritaram contra ela.

25Um deles correu e abriu as portas do jardim.

26Quando os servos da casa ouviram os gritos no jardim, entraram apressados por uma porta lateral para ver o que havia acontecido.

27Depois que os anciãos contaram sua versão, os servos ficaram muito envergonhados, pois nunca se ouvira tal acusação contra Susana.

28No dia seguinte, quando o povo se reuniu na casa de Joaquim, marido de Susana, os dois anciãos também vieram, cheios de intenção perversa contra Susana, decididos a levá-la à morte.

29Diante do povo, disseram: “Mandai chamar Susana, filha de Helcias, mulher de Joaquim”. E mandaram chamá-la.

30Ela veio com seu pai, sua mãe, seus filhos e todos os seus parentes.

31Susana era mulher delicada e de bela aparência.

32Aqueles homens perversos ordenaram que lhe descobrissem o rosto, pois estava velada, para se saciarem de sua beleza.

33Seus familiares e todos os que a viam choravam.

34Então os dois anciãos se levantaram no meio do povo e puseram as mãos sobre a cabeça dela.

35Ela, chorando, ergueu os olhos ao céu, pois seu coração confiava no Senhor.

36Os anciãos disseram: “Enquanto caminhávamos sozinhos no jardim, esta mulher entrou com duas servas, fechou as portas e mandou as servas embora”.

37“Então um jovem, que estava escondido, veio até ela e se deitou com ela”.

38“Nós, que estávamos num canto do jardim, vimos a maldade e corremos até eles”.

39“Vimo-los juntos, mas não conseguimos prender o homem, pois era mais forte que nós; abriu a porta e fugiu”.

40“Prendemos esta mulher e lhe perguntamos quem era o jovem, mas ela não quis dizer. É isso que testemunhamos”.

41A assembleia acreditou neles, pois eram anciãos e juízes do povo; assim, condenaram Susana à morte.

42Então Susana clamou em alta voz: “Ó Deus eterno, que conheces os segredos e sabes todas as coisas antes que aconteçam”.

43“Tu sabes que levantaram falso testemunho contra mim. Eis que devo morrer, embora eu jamais tenha feito aquilo que estes homens maldosamente inventaram contra mim”.

44O Senhor ouviu a sua voz.

45Quando ela era conduzida para a morte, o Senhor despertou o santo espírito de um jovem chamado Daniel.

46Daniel clamou em alta voz: “Estou inocente do sangue desta mulher”.

47Todo o povo se voltou para ele e perguntou: “Que significam estas palavras que disseste?”

48De pé no meio deles, Daniel disse: “Sois tão insensatos, filhos de Israel? Sem exame e sem conhecer a verdade condenastes uma filha de Israel?”

49“Voltai ao lugar do julgamento, pois estes homens deram falso testemunho contra ela”.

50Todo o povo voltou apressadamente. Os anciãos disseram a Daniel: “Vem, senta-te entre nós e mostra-nos o que sabes, pois Deus te concedeu honra de ancião”.

51Daniel respondeu: “Separai-os um do outro, e eu os interrogarei”.

52Quando foram separados um do outro, Daniel chamou o primeiro e disse: “Homem envelhecido na maldade, agora vieram à luz os pecados que cometeste antes”.

53“Tu pronunciavas sentenças injustas, condenavas inocentes e absolvias culpados, embora o Senhor tenha dito: Não matarás o inocente e o justo”.

54“Se realmente a viste, dize-me: debaixo de que árvore os viste juntos?” Ele respondeu: “Debaixo de um lentisco”.

55Daniel disse: “Mentiste contra a tua própria cabeça; o anjo de Deus já recebeu sentença contra ti para te cortar ao meio”.

56Mandou que o retirassem, ordenou que trouxessem o outro e lhe disse: “Raça de Canaã, e não de Judá! A beleza te enganou, e a cobiça perverteu o teu coração”.

57“Assim tratáveis as filhas de Israel, e elas, por medo, cediam a vós; mas uma filha de Judá não tolerou a vossa maldade”.

58“Agora, pois, dize-me: debaixo de que árvore os surpreendeste juntos?” Ele respondeu: “Debaixo de uma azinheira”.

59Daniel disse: “Também tu mentiste contra a tua própria cabeça; o anjo de Deus espera, com a espada, para te partir ao meio e destruir-vos”.

60Então toda a assembleia gritou em alta voz e louvou a Deus, que salva os que nele confiam.

61Levantaram-se contra os dois anciãos, pois Daniel os havia convencido, pela própria boca deles, de falso testemunho.

62Fizeram com eles, segundo a Lei de Moisés, conforme a maldade que haviam tramado contra o próximo, e os mataram. Assim, naquele dia, o sangue inocente foi salvo.

63Helcias e sua mulher louvaram a Deus por sua filha Susana, juntamente com Joaquim, seu marido, e todos os parentes, porque nela não se achou desonra.

64Daquele dia em diante, Daniel tornou-se grande diante do povo.