Deuterocanônicos
Sabedoria
Tradução editorial do Papel Amassado · pt-BR
Fonte textual e critério editorial
O texto apresentado nesta página é uma tradução editorial em português brasileiro preparada pelo Papel Amassado a partir de fontes históricas de domínio público. A fonte textual de referência registrada para esta edição é King James Version Apocrypha — Wisdom of Solomon, edição histórica em domínio público. Também foram consultadas edições e transcrições disponíveis em acervos digitais especializados.
O Livro da Sabedoria, também chamado Sabedoria de Salomão, é uma obra sapiencial judaica composta em grego, geralmente associada ao ambiente helenístico de Alexandria. O texto reflete sobre justiça, imortalidade, idolatria e a ação da sabedoria na história de Israel. Na tradição católica e em várias tradições ortodoxas, Sabedoria integra o Antigo Testamento deuterocanônico. Na maioria das tradições protestantes, é classificada como apócrifa, pois não faz parte do cânon hebraico tradicional.
1Justiça, vida e morte
1Amai a justiça, vós que julgais a terra; pensai no Senhor com coração reto e buscai-o com simplicidade de coração.
2Pois ele se deixa encontrar por aqueles que não o põem à prova, e se manifesta aos que não desconfiam dele.
3Pensamentos perversos afastam de Deus; e o seu poder, quando posto à prova, repreende os insensatos.
4A sabedoria não entra numa alma maliciosa, nem habita num corpo sujeito ao pecado.
5O santo espírito da disciplina foge do engano, afasta-se dos pensamentos sem entendimento e não permanece quando chega a injustiça.
6A sabedoria é espírito que ama o ser humano, mas não absolverá o blasfemador por suas palavras; pois Deus é testemunha de seus íntimos pensamentos, observa fielmente o seu coração e ouve a sua língua.
7O Espírito do Senhor enche o mundo, e aquele que contém todas as coisas conhece cada voz.
8Por isso, quem fala coisas injustas não pode ficar escondido; e a justiça vingadora, quando pune, não passará por ele.
9Será feita investigação dos conselhos dos ímpios, e o som de suas palavras chegará ao Senhor para revelar suas más obras.
10O ouvido zeloso ouve todas as coisas, e o ruído das murmurações não fica oculto.
11Guardai-vos, portanto, da murmuração inútil, e refreai a língua da calúnia; pois nenhuma palavra secreta passará em vão, e a boca mentirosa mata a alma.
12Não busqueis a morte pelo erro de vossa vida, nem atraiais sobre vós a destruição pelas obras de vossas mãos.
13Deus não fez a morte, nem tem prazer na destruição dos vivos.
14Ele criou todas as coisas para existirem; as criaturas do mundo são salutares, não há nelas veneno de destruição, nem domínio da morte sobre a terra.
15Pois a justiça é imortal.
16Mas os ímpios, com suas obras e palavras, chamaram a morte para si; julgando-a amiga, consumiram-se e fizeram aliança com ela, porque são dignos de pertencer-lhe.
2O raciocínio dos ímpios
1Os ímpios disseram entre si, raciocinando sem acerto: A nossa vida é breve e penosa; na morte do homem não há remédio, e ninguém é conhecido por ter voltado da sepultura.
2Nascemos ao acaso, e depois seremos como se nunca tivéssemos existido; o sopro em nossas narinas é como fumaça, e o movimento do coração, uma pequena centelha.
3Apagada essa centelha, o corpo se tornará cinza, e o espírito se dissipará como ar leve.
4Nosso nome será esquecido com o tempo, ninguém se lembrará de nossas obras; nossa vida passará como rastro de nuvem e se dispersará como névoa vencida pelos raios do sol e pelo seu calor.
5Nosso tempo é como sombra que passa; depois do nosso fim não há retorno, pois está selado, e ninguém volta.
6Vinde, pois, aproveitemos os bens presentes; desfrutemos depressa das criaturas, com ardor juvenil.
7Enchamo-nos de vinho precioso e perfumes, e não deixemos passar nenhuma flor da primavera.
8Coroemo-nos de botões de rosa antes que murchem.
9Que nenhum de nós fique sem sua parte em nossos prazeres; deixemos por toda parte sinais de nossa alegria, pois esta é a nossa porção e este é o nosso destino.
10Oprimamos o pobre justo; não poupemos a viúva, nem respeitemos os cabelos brancos do ancião.
11Que a nossa força seja a lei da justiça, pois o fraco se mostra sem valor.
12Armemos ciladas ao justo, porque ele nos incomoda e se opõe às nossas ações; acusa-nos de transgredir a lei e lança sobre nós a infâmia de termos traído nossa educação.
13Ele declara possuir o conhecimento de Deus e chama a si mesmo filho do Senhor.
14Tornou-se para nós uma reprovação viva dos nossos pensamentos.
15Até vê-lo nos é penoso, pois sua vida não é como a dos outros, e seus caminhos são diferentes.
16Ele nos considera falsos; afasta-se de nossos caminhos como de impureza; proclama feliz o fim dos justos e se gloria de ter Deus por pai.
17Vejamos se suas palavras são verdadeiras; provemos o que acontecerá no fim de sua vida.
18Pois, se o justo é filho de Deus, Deus o ajudará e o livrará das mãos de seus adversários.
19Examinemo-lo com insulto e tortura, para conhecermos sua mansidão e provarmos sua paciência.
20Condenemo-lo a uma morte vergonhosa, pois, segundo suas próprias palavras, ele será protegido.
21Assim imaginaram, e foram enganados; a própria maldade deles os cegou.
22Não conheceram os mistérios de Deus, nem esperaram o salário da justiça, nem discerniram a recompensa das almas irrepreensíveis.
23Deus criou o homem para a imortalidade e o fez imagem de sua própria eternidade.
24Contudo, pela inveja do diabo entrou a morte no mundo; e a encontram aqueles que pertencem ao seu partido.
3A esperança dos justos
1As almas dos justos estão na mão de Deus, e nenhum tormento as tocará.
2Aos olhos dos insensatos, pareceram morrer, e sua partida foi considerada desgraça.
3Sua saída do nosso meio pareceu destruição completa; mas eles estão em paz.
4Ainda que aos olhos dos homens tenham sido castigados, sua esperança está cheia de imortalidade.
5Depois de breve correção, receberão grande recompensa; Deus os provou e os achou dignos de si.
6Como ouro na fornalha ele os experimentou, e os recebeu como oferta de holocausto.
7No tempo de sua visitação, eles brilharão e correrão como centelhas no meio da palha.
8Julgarão as nações e dominarão os povos, e o Senhor deles reinará para sempre.
9Os que confiam nele compreenderão a verdade, e os fiéis permanecerão com ele em amor; pois graça e misericórdia pertencem aos seus santos, e ele cuida de seus escolhidos.
10Mas os ímpios serão castigados segundo seus próprios pensamentos, porque desprezaram o justo e abandonaram o Senhor.
11Infeliz é quem despreza a sabedoria e a disciplina; vã é sua esperança, infrutíferos seus trabalhos e inúteis suas obras.
12Suas mulheres são insensatas, e seus filhos, maus.
13Sua descendência é maldita. Feliz, porém, a estéril sem mancha, que não conheceu leito pecaminoso; ela terá fruto no tempo da visitação das almas.
14Feliz também o eunuco que não cometeu iniquidade com as mãos, nem imaginou coisas perversas contra Deus; a ele será dado dom especial de fé e herança mais agradável no templo do Senhor.
15Glorioso é o fruto das boas obras, e a raiz da sabedoria jamais cairá.
16Quanto aos filhos de adúlteros, não chegarão à maturidade; a semente de leito injusto será arrancada.
17Ainda que vivam muito, não serão estimados, e sua velhice final será sem honra.
18Se morrerem depressa, não terão esperança, nem consolação no dia do juízo.
19Terrível é o fim da geração injusta.
4Virtude, morte precoce e juízo
1Melhor é não ter filhos e possuir virtude; a memória da virtude é imortal, porque é conhecida por Deus e pelos homens.
2Quando está presente, os homens a imitam; quando se vai, sentem saudade dela. Ela leva uma coroa e triunfa para sempre, vencendo em busca de recompensas puras.
3Mas a multidão de filhos dos ímpios não prosperará; brotos bastardos não criarão raízes profundas, nem estabelecerão fundamento firme.
4Ainda que por algum tempo floresçam em ramos, por não estarem firmes serão sacudidos pelo vento e arrancados pela força dos vendavais.
5Seus ramos imperfeitos serão quebrados; seu fruto será inútil, verde demais para comer, e sem proveito algum.
6Filhos gerados em leitos ilícitos serão testemunhas da maldade de seus pais no julgamento.
7Mas o justo, ainda que seja alcançado pela morte cedo, estará em repouso.
8A idade honrada não se mede pela duração do tempo, nem pelo número de anos.
9A sabedoria equivale aos cabelos brancos para os homens, e a vida sem mancha é verdadeira velhice.
10Ele agradou a Deus e foi amado por ele; vivendo entre pecadores, foi trasladado.
11Foi levado depressa para que a maldade não lhe mudasse o entendimento, nem o engano seduzisse sua alma.
12Pois o fascínio da maldade obscurece o bem, e a agitação do desejo corrompe a mente simples.
13Tendo sido aperfeiçoado em pouco tempo, cumpriu uma longa vida.
14Sua alma agradou ao Senhor; por isso Deus se apressou em tirá-lo do meio dos perversos.
15O povo viu isso e não entendeu, nem guardou no coração que a graça e a misericórdia estão com os santos de Deus, e que ele olha por seus escolhidos.
16Assim, o justo morto condenará os ímpios vivos; e a juventude aperfeiçoada cedo condenará a longa velhice do injusto.
17Eles verão o fim do sábio e não compreenderão o que Deus decidiu a seu respeito, nem para que fim o Senhor o pôs em segurança.
18Eles o verão e o desprezarão; mas Deus zombará deles. Depois disso serão cadáver vil e opróbrio entre os mortos para sempre.
19Ele os rasgará e os derrubará de cabeça, deixando-os mudos; abalará seus fundamentos, serão completamente devastados, ficarão em dor, e sua memória perecerá.
20Quando prestarem contas de seus pecados, virão com medo; e suas próprias iniquidades os acusarão face a face.
5A vindicação dos justos
1Então o justo se levantará com grande coragem diante daqueles que o afligiram e desprezaram seus trabalhos.
2Ao vê-lo, ficarão tomados de terrível medo e se espantarão com a estranheza de sua salvação, tão além de tudo que esperavam.
3Arrependidos e gemendo em angústia de espírito, dirão entre si: Este é aquele de quem outrora zombamos, fazendo dele provérbio de desprezo.
4Nós, insensatos, julgamos sua vida loucura e seu fim como desonra.
5Como foi ele contado entre os filhos de Deus, e sua porção está entre os santos?
6Portanto, nós nos desviamos do caminho da verdade; a luz da justiça não brilhou para nós, e o sol da justiça não nasceu sobre nós.
7Cansamo-nos no caminho da maldade e da destruição; atravessamos desertos sem caminho, mas não conhecemos o caminho do Senhor.
8De que nos aproveitou o orgulho? Que bem nos trouxeram a riqueza e a ostentação?
9Tudo isso passou como sombra, como mensageiro que corre apressado.
10Foi como navio que atravessa as ondas: depois que passa, não se encontra seu rastro, nem a trilha da quilha nas águas.
11Ou como ave que voa pelo ar: não se acha sinal de seu caminho; o ar leve, batido pelo golpe das asas e dividido pelo movimento veloz, logo se fecha, e depois não se encontra sinal de sua passagem.
12Ou como flecha lançada ao alvo: ela corta o ar, que logo se reúne de novo, de modo que ninguém sabe por onde passou.
13Assim também nós, logo que nascemos, começamos a caminhar para o fim; não deixamos sinal de virtude e fomos consumidos por nossa própria maldade.
14A esperança do ímpio é como pó levado pelo vento, como espuma fina dispersa pela tempestade, como fumaça espalhada pela ventania, e passa como a lembrança de hóspede que fica apenas um dia.
15Mas os justos vivem para sempre; sua recompensa está com o Senhor, e o Altíssimo cuida deles.
16Por isso receberão reino glorioso e bela coroa da mão do Senhor; ele os protegerá com sua direita e os defenderá com seu braço.
17Ele tomará seu zelo como armadura completa e fará da criação inteira uma arma contra seus inimigos.
18Vestirá a justiça como couraça, e o juízo verdadeiro como capacete.
19Tomará a santidade como escudo invencível.
20Afiará sua ira severa como espada, e o mundo lutará com ele contra os insensatos.
21Raios certeiros partirão, e das nuvens, como de um arco bem retesado, voarão para o alvo.
22Pedras de granizo cheias de ira serão lançadas como por funda; o mar se enfurecerá contra eles, e os rios os submergirão violentamente.
23Um vento poderoso se levantará contra eles e, como tempestade, os dispersará. Assim a iniquidade devastará toda a terra, e a má ação derrubará os tronos dos poderosos.
6Exortação aos governantes
1Ouvi, portanto, ó reis, e entendei; aprendei, vós que julgais os confins da terra.
2Escutai, vós que governais os povos e vos gloriais na multidão das nações.
3O poder vos foi dado pelo Senhor, e a soberania pelo Altíssimo, que examinará vossas obras e sondará vossos conselhos.
4Porque, sendo ministros de seu reino, não julgastes retamente, nem guardastes a lei, nem andastes segundo o conselho de Deus.
5De modo terrível e repentino ele virá contra vós, pois julgamento severo será feito contra os que estão em posições elevadas.
6Ao humilde, a misericórdia logo perdoa; mas os poderosos serão poderosamente atormentados.
7O Senhor de todos não teme pessoa alguma, nem se impressiona com grandeza; ele fez o pequeno e o grande, e cuida igualmente de todos.
8Mas uma prova severa virá sobre os poderosos.
9A vós, portanto, ó reis, falo, para que aprendais sabedoria e não venhais a cair.
10Os que guardam santamente as coisas santas serão julgados santos, e os que as aprenderam encontrarão defesa.
11Ponde, pois, vosso afeto em minhas palavras; desejai-as, e sereis instruídos.
12A sabedoria é gloriosa e nunca murcha; é facilmente vista pelos que a amam e encontrada pelos que a procuram.
13Ela se antecipa aos que a desejam, fazendo-se conhecida primeiro.
14Quem a busca cedo não terá grande fadiga, pois a encontrará sentada à sua porta.
15Pensar nela é perfeição da sabedoria, e quem vela por ela logo ficará sem inquietação.
16Ela anda procurando os que são dignos dela, mostra-se favorável a eles em seus caminhos e os encontra em cada pensamento.
17O verdadeiro começo dela é o desejo da disciplina; e o cuidado da disciplina é amor.
18O amor é a observância de suas leis; e atender às suas leis é garantia de incorruptibilidade.
19A incorruptibilidade nos aproxima de Deus.
20Assim, o desejo da sabedoria conduz ao reino.
21Se vosso prazer está em tronos e cetros, ó reis dos povos, honrai a sabedoria, para que reineis para sempre.
22Quanto à sabedoria, direi o que ela é e como surgiu; não esconderei de vós os mistérios, mas a buscarei desde o começo de sua origem, trarei seu conhecimento à luz e não passarei ao largo da verdade.
23Também não caminharei com inveja que consome, pois quem age assim não terá comunhão com a sabedoria.
24A multidão dos sábios é o bem-estar do mundo, e um rei sábio é sustentação do povo.
25Recebei, pois, instrução por minhas palavras, e ela vos fará bem.
7O valor e a natureza da sabedoria
1Eu mesmo sou homem mortal como todos, descendente daquele primeiro formado da terra.
2No ventre de minha mãe fui formado como carne durante dez meses, composto em sangue, da semente humana e do prazer que acompanha o sono.
3Quando nasci, respirei o ar comum e caí sobre a terra da mesma natureza; minha primeira voz foi choro, como a de todos.
4Fui criado em faixas e com cuidados.
5Nenhum rei teve outro começo de nascimento.
6Todos os homens têm uma só entrada na vida e igual saída.
7Por isso orei, e o entendimento me foi dado; invoquei a Deus, e veio a mim o espírito da sabedoria.
8Preferi-a a cetros e tronos, e considerei as riquezas nada em comparação com ela.
9Não comparei a ela pedra preciosa alguma, pois todo ouro, diante dela, é como um pouco de areia, e a prata será considerada barro perante ela.
10Amei-a mais que a saúde e a beleza, e escolhi tê-la em lugar da luz, pois a luz que vem dela nunca se apaga.
11Todos os bens vieram a mim juntamente com ela, e incontáveis riquezas estavam em suas mãos.
12Alegrei-me com todos eles, porque a sabedoria os precede; mas eu não sabia que ela era mãe deles.
13Aprendi com diligência e a comunico com generosidade; não escondo suas riquezas.
14Ela é tesouro inesgotável para os homens; os que dela se servem tornam-se amigos de Deus, recomendados pelos dons que vêm da instrução.
15Deus me concedeu falar como convém e conceber pensamentos dignos das coisas que me foram dadas, porque ele conduz à sabedoria e dirige os sábios.
16Em sua mão estamos nós e nossas palavras, toda sabedoria e o conhecimento das artes.
17Ele me deu conhecimento seguro das coisas que existem: saber como o mundo foi feito e a operação dos elementos.
18O princípio, o fim e o meio dos tempos; as mudanças do curso do sol e a alteração das estações.
19Os ciclos dos anos e as posições das estrelas.
20A natureza dos seres vivos, a fúria dos animais selvagens, a força dos ventos, os raciocínios dos homens, a diversidade das plantas e as propriedades das raízes.
21Conheci todas as coisas, secretas ou manifestas.
22Pois a sabedoria, artífice de todas as coisas, me ensinou. Nela há um espírito inteligente, santo, único, múltiplo, sutil, ágil, claro, sem mancha, límpido, invulnerável, amante do bem, penetrante, irresistível e pronto para fazer o bem.
23É bondosa para com os homens, firme, segura, livre de cuidados, onipotente, tudo supervisiona e penetra todos os espíritos inteligentes, puros e mais sutis.
24A sabedoria é mais móvel que qualquer movimento; por sua pureza atravessa e penetra todas as coisas.
25Ela é sopro do poder de Deus e emanação pura da glória do Todo-Poderoso; por isso nada impuro pode entrar nela.
26Ela é o brilho da luz eterna, espelho sem mancha do poder de Deus e imagem de sua bondade.
27Sendo uma só, pode tudo; permanecendo em si mesma, renova todas as coisas; e, entrando nas almas santas em cada geração, faz delas amigas de Deus e profetas.
28Deus não ama ninguém senão aquele que habita com a sabedoria.
29Ela é mais bela que o sol e supera toda ordem das estrelas; comparada à luz, mostra-se superior.
30Depois da luz vem a noite; mas o vício não prevalecerá contra a sabedoria.
8A sabedoria como companheira
1A sabedoria alcança com força de uma extremidade à outra e ordena suavemente todas as coisas.
2Eu a amei e a busquei desde a juventude; desejei tomá-la por esposa e tornei-me amante de sua beleza.
3Por conviver com Deus, ela engrandece sua nobreza; o próprio Senhor de todas as coisas a amou.
4Ela conhece os mistérios do conhecimento de Deus e ama as suas obras.
5Se as riquezas são possessão desejável nesta vida, que há de mais rico que a sabedoria, que opera todas as coisas?
6Se a prudência opera, quem, dentre tudo o que existe, é artífice mais hábil que ela?
7Se alguém ama a justiça, os trabalhos da sabedoria são virtudes: ela ensina temperança, prudência, justiça e fortaleza, coisas mais úteis que quaisquer outras na vida dos homens.
8Se alguém deseja grande experiência, ela conhece as coisas antigas e conjectura corretamente as futuras; conhece as sutilezas dos discursos, interpreta sentenças obscuras, prevê sinais e prodígios, e os acontecimentos das estações e dos tempos.
9Por isso decidi tomá-la para viver comigo, sabendo que ela seria conselheira de bens e conforto nas preocupações e tristezas.
10Por causa dela terei estima entre a multidão e honra entre os anciãos, embora eu seja jovem.
11Serei achado perspicaz no julgamento e admirado diante dos grandes.
12Quando eu me calar, esperarão por mim; quando eu falar, prestarão atenção; se eu falar longamente, porão a mão sobre a boca.
13Por meio dela alcançarei imortalidade e deixarei memória eterna aos que vierem depois de mim.
14Porei os povos em ordem, e as nações me serão sujeitas.
15Tiranos terríveis temerão quando ouvirem falar de mim; serei considerado bom entre o povo e valente na guerra.
16Ao entrar em minha casa, repousarei com ela, pois sua companhia não tem amargura; viver com ela não traz tristeza, mas alegria e contentamento.
17Quando considerei essas coisas comigo mesmo e meditei em meu coração que unir-se à sabedoria é imortalidade,
18que sua amizade traz grande prazer, que nas obras de suas mãos há riquezas infinitas, que no exercício de conversar com ela há prudência, e em falar com ela há boa fama, comecei a procurar como tomá-la para mim.
19Eu era uma criança de boa inteligência e tinha bom espírito.
20Ou melhor: sendo bom, vim a um corpo sem mancha.
21Contudo, percebendo que não poderia obtê-la a não ser que Deus a concedesse — e já era sabedoria saber de quem vinha esse dom —, orei ao Senhor, supliquei-lhe e disse de todo o coração:
9Oração por sabedoria
1Ó Deus de meus pais e Senhor de misericórdia, que fizeste todas as coisas por tua palavra,
2e pela tua sabedoria formaste o homem para dominar as criaturas que fizeste,
3para governar o mundo com equidade e justiça, e exercer julgamento com coração reto,
4dá-me a sabedoria que se assenta junto ao teu trono, e não me rejeites do número de teus filhos.
5Sou teu servo e filho de tua serva, homem fraco, de poucos dias, jovem demais para compreender julgamento e leis.
6Ainda que alguém seja perfeito entre os filhos dos homens, se tua sabedoria não estiver com ele, será tido por nada.
7Tu me escolheste para ser rei de teu povo e juiz de teus filhos e filhas.
8Ordenaste-me construir um templo em teu santo monte e um altar na cidade onde habitas, semelhança do santo tabernáculo que preparaste desde o princípio.
9Contigo está a sabedoria, que conhece tuas obras, esteve presente quando fizeste o mundo, sabe o que é agradável aos teus olhos e o que é reto segundo teus mandamentos.
10Envia-a dos teus santos céus, do trono da tua glória, para que, estando comigo, trabalhe ao meu lado e eu conheça o que te agrada.
11Ela sabe e entende todas as coisas; guiar-me-á com sobriedade em minhas ações e me guardará em seu poder.
12Assim minhas obras serão aceitáveis; julgarei teu povo com justiça e serei digno de sentar-me no trono de meu pai.
13Pois que homem pode conhecer o conselho de Deus? Quem pode imaginar a vontade do Senhor?
14Os pensamentos dos mortais são pobres, e nossos planos são incertos.
15O corpo corruptível pesa sobre a alma, e a tenda terrena oprime a mente que medita muitas coisas.
16Mal adivinhamos corretamente as coisas da terra, e com esforço encontramos o que está diante de nós; quem, então, investigou as coisas do céu?
17Quem conheceu teu conselho, se não lhe deste sabedoria e não enviaste do alto o teu Santo Espírito?
18Assim foram corrigidos os caminhos dos que viveram sobre a terra; os homens aprenderam as coisas que te agradam e foram salvos pela sabedoria.
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